Resenha | Retorno a Brideshead

Olá!

Esse post faz parte das minhas LEITURAS DE JUNHO 2018.

Processed with VSCO with c3 preset

Continue lendo para conferir a RESENHA COMPLETA!


RETORNO A BRIDESHEAD – Evelyn Waugh

Título original: BRIDESHEAD REVISITED – THE SACRED AND PROFANE MEMORIES OF CAPITAIN CHARLES RYDER, 1945.

Versão lida: Em PORTUGUÊS, editora COMPANHIA DAS LETRAS, 2017. (Livro recebido na caixa de assinatura da TAG de Janeiro de 2018.) 

O autor

Evelyn_Waugh_1-998x749

Evelyn Waugh (que era homem, apesar do nome) nasceu em 1903 em Londres. Era conhecido por seu temperamento difícil, desagradável e arrogante; ao mesmo tempo considerado um dos mais importantes satiristas ingleses do século XX, cuja obra contém desde romances a biografias, críticas literárias e livros de viagem.

O lançamento de RETORNO A BRIDESHEAD foi o ápice de seu sucesso como autor, que lhe trouxe fama, dinheiro e status literário. Depois disso ele passou a viajar muito e escrever romances sobre suas experiências. Faleceu aos 72 anos em 1966, em decorrência do abuso de álcool e remédios.

Seus livros foram muitas vezes adaptados para o cinema, e sua obra se mantém relevante não só para a literatura inglesa, mas também para a história do gênero literário da sátira social e política. 

O livro

Waugh, conhecido por escrever sobre o período entre guerras e sobre os anos da 2ª Guerra Mundial, gostava de evidenciar a forma como viviam as elites inglesas da época, destroçadas de todas as formas pelos horrores da guerra.

Em RETORNO A BRIDESHEAD, o autor nos apresenta a um mundo opulento de luxo e rigor que não resistiu as tristes condições do tempo, e remanescem apenas nas lembranças do povo inglês e em seus incontáveis casarões e rituais aristocráticos.

Durante os anos que antecederam a segunda guerra, Charles Ryder, personagem pelo qual somos introduzidos a esse mundo tão distante de nós, inicialmente um jovem de classe média inglês que entra para a Universidade, privilégio apenas dos homens da época, é apresentado ao mundo dos jovens de família rica, os quais tendem a ver a vida como uma grande festa de charutos e uísque, pouquíssimo interessados em responsabilidades ou estudos.

Charles se encanta de imediato pelo glamoroso Sebastian Flyte, um jovem desgarrado do mundo real que vive em função de suas pequenas festas e noitadas com os colegas, sempre dependente de toda a atenção possível e carregado de melancolia em todos os seus diálogos. 

Há uma tristeza que é sentida de imediato em Sebastian. Suas noções de mundo e de amizade fazem o leitor tomá-lo por um amigo-problema instantaneamente. Ele tem boa índole e é capaz de encantar todos em seu caminho, porém o pobre Charles não consegue deixar de sucumbir a seus encantos e em pouco tempo, está determinado a viver seus dias na Universidade como o amigo, deleitando-se em luxos além de suas condições financeiras, e fazendo pouco das responsabilidades.

Processed with VSCO with c3 preset

Nessa primeira fase do livro, o centro das atenções é Sebastian, e arrisco dizer que isso é verdade em todo o livro, apesar dele se desenvolver para longe do personagem após um tempo. Porém a menção de seu nome e seu paradeiro no mundo é uma constante, e é possível sentir a necessidade de Charles em manter esse vínculo a todo momento.

Em determinado período de férias Sebastian, já completamente dependente da atenção e amizade de Charles, o apresenta à grande mansão da família, Brideshead, onde se encontram tantos cômodos quanto é possível contar, um sem-fim número de empregados e, entre idas e vindas, seus familiares.

Sebastian tem duas irmãs e um irmão. Bridey, o mais velho, se apresenta como um homem de poucas palavras, poucos interesses e algumas responsabilidades. A irmã mais nova, Cordélia, ainda é uma criança quando a conhecemos, e Julia é uma moça que acaba de debutar. A mãe de Sebastian também habita o local, mas seu pai, que conhecemos muito depois, mora na Itália com a antiga amante, atual segunda esposa.

O modo de vida da família, muito mais que seus luxos e riquezas, são a exemplificação das famílias aristocráticas da época, quando o luxo das propriedades causava desejo e inveja, e onde podia-se apenas sonhar em conviver.

Apesar disso, a realidade da polidez e dos modos extremamente impessoais dos ingleses nunca foi tão bem exemplificado. Cada momento, cada interação, cada refeição se torna um desfile de relações congeladas e sentimentos enterrados. Apenas Sebastian parece ter a coragem necessária para ser infeliz na superfície. 

Julia se mostra uma jovem de espírito livre desde o começo, evidenciado pela forma levemente diferente que tem de se vestir e se portar. Seu desejo de independência é latente, porém impróprio para a época.

Processed with VSCO with c3 preset

Sebastian então, com o passar de algumas aventuras impensadas ao lado do querido companheiro, passa a representar um verdadeiro peso na vida de Charles, com bebedeiras intermináveis e problemas com a Universidade. Apesar disso, o amor com que Charles o trata está preso a cada página, cada ação.

A relação dos dois é somente incitada como homossexual, porém a própria história de vida do autor sugere que há verdade nessa suspeita, apesar de ficar somente no mundo das conjecturas.

Antes do fim da universidade, após já ter sua “amizade” com Sebastian muito deteriorada, Charles decide abandonar os estudos para seguir a carreira de artista. Suas pinturas agradavam muito, e ele decide que viverá disso, longe da dependência financeira do pai que em quase nada influenciava sua vida e/ou decisões.

Durante o segundo ato do livro, o autor evidencia uma determinação de Charles de viver as próprias aventuras, afastado do comportamento destrutivo do amigo, porém são muito profundas as amarras que o levam a atravessar muitos quilômetros atrás de tentar resgatar Sebastian de si mesmo. 

Após muitas idas e vindas, fica claro que o personagem de Sebastian está totalmente perdido para os padrões que Charles pretende alcançar, ou até mesmo manter. Após consideração, imagino que Sebastian além de sofrer do alcoolismo que, em determinado momento, se torna o traço mais marcante de sua personalidade, também era dono de uma mente confusa sexualmente, e traumatizada pela criação impessoal e pouco acolhedora. Sua repulsa com relação a tudo que pudesse ser remotamente ligado a sua família é clara desde o primeiro momento em que Charles toca no assunto, e dai por diante ele só tenta rejeitar mais e mais a ligação.

Após obter certo sucesso, Charles passa alguns anos viajando, pintando e se desapegando da Inglaterra, onde ficaram para trás sua esposa e filhos. Ele não mostra, em momento algum da trama, arrependimento ou mesmo afeto para com a mulher ou as duas crianças, que nem se deu ao trabalho de conhecer.

Todos que não estão de alguma forma ligados a Sebastian ou aos Flyte de forma geral não são dignos de seu afeto, ou atenção.

Processed with VSCO with c3 preset

Já no terceiro ato Charles retorna à Inglaterra, declarando-se apaixonado por Julia, a irmã de Sebastian. Os dois casados, precisam passar pelo tortuoso caminho que era o divórcio na época para que possam ficar juntos, e até a última página esse aspecto da trama fica em suspensão.

Um fator determinante na trama é a presença da religião Católica, altamente criticada por Charles, rejeitada por Sebastian e fortemente abraçada por Julia. Muitos dos conflitos gerados durante a trama circundam o fato de que a religião Católica rege, em muitos momentos, as decisões de cada pessoa, apesar dos costumes da época que já justificavam muitas de suas ações.

Durante o período em que Charles retorna a Brideshead para ficar com Julia e ajudar a manter viva a residência, antes que a guerra estourasse e seus dias como abrigo da família chegasse ao fim, há grande desenrolar intelectual do casal, que luta para ficar juntos apesar dos olhos negativos da sociedade e da própria família.

Acho que o amor de Charles por Júlia estava fortemente informado por seu amor frustrado por Sebastian, e a forma como ele não pode salva-lo. Apesar de achar que Charles era definitivamente bissexual, seus sentimentos e afeições com certeza tinham mais a ver com a forma como o rosto ou o jeito de falar de Julia o lembravam de seu amigo, e como a vida dentro daquela família mantinham vivas suas lembranças dos bons tempos que viveram juntos e dos dias que ele viveu ali, afastado do mundo dentro daquela propriedade idílica, sensorial e luxuosa, além das dores do mundo.

Para Sebastian, Brideshead sempre foi motivo de tristeza, sinônimo de todas as mágoas e indiferenças que o adoeciam a cada dia, mas para Charles era prova da vida que uma vez pode viver, dos momentos de carinho com o amigo, de luxo com a família, e de amor com a noiva.

Acredito que a escrita do autor, apesar de rebuscada e alongada em determinados momentos, se encaixa completamente no mundo que ele pretende pintar, e a descrição de cada evento coloca o leitor como testemunha dentro dos cômodos da casa, entregando uma sensação de convivência muito forte, assim como sentiu Charles.

Retorno a Brideshead é uma deliciosa recontagem de um mundo distante e desligado da realidade que somente posso imaginar, e a análise que precisei fazer sobre cada personagem em separado só tornou a experiência mais rica e marcante. Esse é o traço de um ótimo trabalho. A trama ficará com você para sempre.


Gostou da resenha? Já leu o livro? Quer dividir sua opinião? Fique à vontade!

Obrigada pela visita e se inscreva!

modeloassinatura


Conheça meus romances cômicos.

Leia sinopses e primeiros capítulos AQUI!

fb promo

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s