Jogo De Amor Em Eleonor

jogo de amor decal

 

 

 

 

JOGO-DE-AMOR-EM-ELEONOR

Os primeiros capítulos estão disponíveis abaixo! Você também pode ler essa pequena amostra pelo site da Amazon.

Para adquirir sua versão digital ebook clique AQUI!


Jogo De Amor
Em Eleonor

Ana Luiza Medeiros

Direitos Reservados, 2017

1° Ano

1

Certo. Sorria, seja simpática. Sociável. Eu consigo.
As últimas palavras de minha mãe ao telefone essa manhã foram muito claras. — Quando chegar em casa, vamos comer bolo de chocolate, e você vai me contar todas as suas aventuras desse semestre, ok?

Não parece, mas esse pedido veio carregado de pressão psicológica. Ela sabe muito bem que minha maior e mais emocionante “aventura” esse ano, foi ficar acordada quarenta e oito horas direto, estudando para uma prova final que valia setenta por cento da nota do semestre. Eu não sou do tipo que vive aventuras, e minha mãe está careca de saber disso. Afinal, a mulher me criou, ela me conhece.

O que motivou seu comentário foi uma conversa que tivemos há quase seis meses, quando fui para casa após finalizar meu primeiro semestre na Universidade. Sentamos, e ela me fez esse mesmo questionamento. Queria que passássemos a noite toda conversando sobre minha louca vida de universitária, mas tenho que confessar que essa conversa não foi nada como ela esperava, aliás, durou pouco mais do que meia hora. Longe de atingir suas expectativas.

Lhe contei sobre meus novos professores, novas matérias e assuntos, sobre a estrutura física do campus, o qual ela já conhecia bem por causa de nossa visita à Universidade, quando estávamos decidindo para onde eu iria para continuar meus estudos.
Ao final do meu curto, mas conciso monólogo, ela fez a detestada pergunta. — E você fez algum amigo? — Tentei desconversar e comentar sobre as conversas em sala de aula que tinha tido com colegas, mas quando ela quis saber sobre festas ou garotos bonitos, só para variar, eu não tive nada a dizer.

Após alguns minutos de encorajamento, me garantindo pela milionésima vez que eu era completamente capaz de fazer amigos dada a beleza, tanto da minha cara como da minha personalidade, ela me fez prometer que na próxima visita, ao final do primeiro ano de curso, eu teria boas histórias sobre novos amigos e os todos os momentos que passávamos juntos. Sabe, fazendo o que quer que seja que universitários fazem.

Após um semestre completo de dedicação total aos estudos, chegamos ao último dia de aulas, e consequentemente, a última noite no campus antes de ir para casa passar um longo verão. Essa manhã, enquanto arrumava as malas para pegar o ônibus no dia seguinte, meu celular tocou, e minha mãe confirmou o horário em que eu estaria chegando amanhã ao final do dia, na rodoviária da cidade. Mas ela não perdeu a oportunidade de me servir uma pitada final de remorso, ao me relembrar da promessa. Nos sentaríamos no sofá da sala mais uma vez, com bolo de chocolate no colo, e ela se prepararia emocionalmente para ouvir todas as minhas “aventuras” do semestre.

Eu sei que ela faz isso pelo meu bem, e que imagina que ao me dedicar completamente aos estudos, eu esteja perdendo a oportunidade de ter momentos de pura diversão, mas a verdade é que tivemos variações dessa conversa a minha vida toda. Eu nunca fui sociável, e sempre preferi a companhia de um bom livro ao de alguma menina boba da escola, e isso sempre a incomodou.
Minha mãe me encorajava a fazer amigos desde o jardim de infância, e precisei chegar até o final do meu primeiro ano de Universidade, para sentir remorso o suficiente para me obrigar a tal.

Após tomar um caixote na onda de culpa que minha mãe desencadeou, me dei por vencida e me sentei em frente ao notebook, entrei no site oficial da Universidade, e cliquei na barra azul do menu que dizia Calendário Social. Uma série de eventos apareceram em cascata, emoldurados por fotos de alunos sorridentes e ambientes diferenciados do campus. O único evento ainda sem foto e que tinha a data de hoje era a Confraternização de final de ano, organizada pelos alunos formandos para se socializar com colegas e professores uma última vez antes da formatura. Interessante.
Eu poderia participar de um evento social, e de quebra tirar uma dúvida sobre minha nota da prova final com uma certa professora muito exigente, caso desse a sorte de encontrá-la por lá. Perfeito.

Depois que cheguei da minha última aula do ano, oficialmente, passei algumas horas finalizando a organização do quarto, afinal eu não queria me atrasar pela manhã e perder meu ônibus para casa. Após um breve momento de deliberação me decidi por usar jeans e uma camisa floral, com sapatilhas brancas. Passei um pouco de perfume e às cinco da tarde em ponto, assim como constava no Calendário Social do site, deixei o prédio E de alojamentos e me encaminhei para o prédio da biblioteca central, onde existiam alguns auditórios menores e outras salas da parte administrativa da Universidade, e na sala C encontrei duas meninas conversando perto do palco, um rapaz sentado em frente a uma mesa onde haviam vários biscoitos e salgados, e dois professores sentados numa mesa ao fundo, conversando e sorrindo.

Quando me aproximei do palco as duas meninas me olharam com pouco ou nenhum interesse.
— A Professora Carmem vai participar da confraternização?
Perguntei. Uma delas revirou os olhos e me respondeu com a voz arrastada.
— Todos os professores e formandos receberam o convite. Vai ter que esperar para ver se ela aparece ou não.
Certo. Não me preocupei em agradecer pela informação, por que ela me virou as costas e continuou seu papo nada animado com a amiga.

Dei meia volta e me sentei na última cadeira ao canto do palco. Estava com as costas na parede, e assim eu teria uma boa visão de todos que entrassem no lugar.
Já passava das seis da tarde quando o pequeno auditório começou a fervilhar com vozes, em sua grande maioria de professores. Os poucos alunos que chegavam logo encontravam seus colegas, e se reuniam nos cantos para conversar e ignorar todos os outros. Eram todos formandos, eu podia ver, e estavam apenas cumprindo o protocolo.
Não havia nenhum aluno que estivesse realmente se confraternizando com os professores, ou qualquer outro aluno que já não fosse seu amigo, isso era óbvio. Grande coisa. Se todos os eventos sociais eram assim, então eu com certeza não estava perdendo nada.

Por mais que me mantivesse atenta à porta e quem passava por ela, eu tinha certeza de que a professora que eu procurava ainda não havia chegado, e talvez nunca chegasse; e me perguntei se talvez não teria sido uma perda de tempo esperar por mais de uma hora, quando eu poderia ter ido procurá-la em sua sala ou em seu escritório na coordenadoria.
Antes de desistir por completo desse evento social fracassado, me dirigi à mesa dos salgados e peguei um biscoito de queijo de um dos pratinhos. Enquanto eu comia, o mesmo garoto que antes estava sentado na cadeira agora vazia do outro lado da mesa se aproximou.

— Você vai para o Castelo daqui? Por que se estiver de carro, eu queria pedir uma carona.
Meu olhar recaiu sobre o seu, seus olhos castanhos vibrantes me encarando à espera de uma resposta. Fingi que precisava mastigar mais um pouco para ganhar tempo, enquanto tentava decifrar o que ele tinha acabado de dizer.
Seu olhar estava tão compenetrado em mim, que por um momento as palavras me escaparam, e quando finalmente me compeli a abrir a boca e falar, só o que consegui dizer foi:
— Eu não tenho carro.

Ele pareceu se decepcionar muito com minha resposta, e vasculhou as redondezas com o olhar, mexendo a cabeça com pressa e fazendo seus cabelos castanhos se mexerem. Então seu olhar parou sobre alguém ao longe e ele colocou sua mão no meu ombro, se inclinou levemente em direção ao meu rosto e falou baixinho.

— Acho que consigo uma carona com eles. Já volto.
E sumiu em meio às pessoas. Observei enquanto ele abordava um trio de rapazes que conversava com um professor muito idoso, sorrindo e tirando fotos com ele com o celular. Depois de alguns momentos de conversa ele se animou, deu uma tapinha amigável nas costas de um dos rapazes, e logo em seguida nossos olhares se encontraram. Ele fez um sinal positivo com o polegar e abriu um sorriso.

Me virei de uma vez de volta para a mesa, num reflexo adquirido após anos de treinamento. Estava me decidindo entre comer outro biscoito de queijo ou começar a jogar no celular, quando o garoto apareceu ao meu lado novamente.
— Consegui a carona, e tem lugar para nós dois. Assim que eles agradecerem, a gente…
Antes que ele terminasse de falar, uma das meninas do início, a que não falou comigo, chamou a atenção de todos para si. Ela estava no palco com um microfone na mão.
— Um minuto de sua atenção por favor.

A conversa sessou e todos se colocaram a ouvi-la.
— Como uma das representantes dos formandos desse ano, eu gostaria de agradecer a presença de todos, especialmente…
Enquanto ela falava, olhei para o lado e não encontrei mais o garoto. Me distraí enquanto procurava seus cabelos castanhos dentre as pessoas, e o encontrei ao lado de uma garota parada perto do palco. Eles cochichavam discretamente, e notei quando ela lhe passou uma nota de cinquenta, que ele imediatamente colocou no bolso do jeans, logo em seguida voltando a prestar atenção na menina no palco.

— …que seremos eternamente gratos. Nos veremos na formatura. Até lá.
Houve uma salva de palmas discreta, alguns assobios altos, e logo o alvoroço ficou visível. Enquanto os professores voltavam a confraternizar, os alunos em grupos e duplas caminhavam sem medo pela porta, cochichando e sorrindo, claramente animados com a possibilidade de deixar o auditório.
Enquanto eu assistia um grupo de cinco meninas gargalharem ao caminhar pela porta, eu vi a Professora Carmem, parada mais ao lado, conversando animadamente com outros dois professores.

— Vamos?
Era o garoto. Ele se materializou ao meu lado, seu sorriso animado ainda no rosto, o corpo virado em direção a porta. Meu olhar dançou de seu rosto para o perfil da professora, e de volta para ele. Alguma coisa em mim se revirou, bem no estômago, e no segundo seguinte minha boca se mexeu.
— Vamos.

Seguimos os três garotos pela calçada ensolarada em direção ao estacionamento, e observei enquanto eles sorriam e conversavam entre si, a luz do sol se esvaindo enquanto a noite se preparava para chegar.
— Como foi mesmo que você chamou o lugar para onde vamos?

Perguntei um pouco sem ar, quase correndo para acompanhar o ritmo. O garoto me olhou rápido ainda sorrindo e respondeu.
— O Castelo. Você nunca ouviu falar?
— Eu deveria ter ouvido? — Questionei.
— É a república da rua 34. A Saideira sempre acontece lá.
— A Saideira?
Ele me olhou mais uma vez, a descrença crescendo em seu rosto. Um dos rapazes se posicionava para abrir a porta do passageiro do carro branco, quando ele respondeu.

— A última festa do ano. Quem te convidou não contou nada disso?
Antes de tomar meu lugar no banco de trás, balancei a cabeça negativamente em resposta. Assim como o tal convite, aquela velha conhecida vontade de estar sozinha com meus livros que eu esperava surgir a qualquer momento, não aconteceu.
Observei enquanto os rapazes conversavam animadamente, e quando ligaram o som do carro, uma música eletrônica de um desses DJs da moda gritou alto, impedindo que eu identificasse qualquer outro som. O motorista deu ré para fora da vaga e nossa jornada começou.

Passamos pelos fundos do prédio central onde ficam as coordenadorias, e continuamos em direção aos portões do campus, por onde passamos direto. Ao ganharmos a avenida, dirigimos poucos minutos em direção ao centro da cidade de Eleonor do Norte, uma cidadezinha interiorana, pequena e pacata, onde os bairros centrais eram tomados por estudantes universitários que deixavam suas casas em todo o país para morar aqui, seguindo seus sonhos de ter um diploma da Universidade mais completa da região.

A avenida no centro da cidade dividia os quatro principais bairros universitários, todos eles tomados por repúblicas lotadas de jovens estudantes. E os que não ocupavam as repúblicas moravam no campus, como eu, em quartos apertados e usando banheiros comunitários, um por andar. Puro glamour.

O carro subiu pela rua 34 e num percurso muito curto chegamos em frente a uma casa grande, de três andares, um belo jardim florido na frente, e muitos carros estacionados ao longo do meio-fio. Eu podia ouvir vozes e música, e quando descemos do carro ninguém esperou por nada. Todos trataram de caminhar para dentro da casa sem cerimônias, a antecipação exalando pelos poros. Eu os segui a uma distância segura.
Assisti aos três amigos passarem pela porta, e quando o garoto de cabelos castanhos alcançou o degrau da frente, se virou e me encontrou parada na calçada com as mãos nos bolsos dos jeans, e com um bolo no estômago.

Ele sustentou meu olhar por um momento, e quando não me mexi ele sorriu.
— Te vejo lá dentro?
Sorri de volta como resposta, e ele se deu por satisfeito. Caminhou em direção a porta e entrou sem olhar para trás.
Me mantive parada ali por mais alguns instantes. Vi mais dois carros cheios de estudantes diminuírem a velocidade na rua à procura de vagas de estacionamento, e grupos de garotos e garotas mais bem vestidos do que eu saltitarem em direção a festa.
Respirei fundo, e dei o primeiro passo.
— Que comece a aventura.

2

A primeira coisa que vi assim que passei pela porta, foi a porta dos fundos, diretamente em frente a mim, do outro lado da sala, a uns bons quinze passos de distância. Havia gente por toda parte. Sentados nos sofás, espalhados pela sala, nos degraus da escada ao lado, na cozinha mais à frente. Assim que passei pela porta dos fundos, vi muito mais gente espalhada pelo gramado, em volta da piscina, sentados em volta de mesas de plástico.

A música ficou mais alta por que vinha de duas caixas de som enormes, localizadas nas laterais de uma mesa de onde um garoto muito animado atuava como DJ. Pude ver uma mesa comprida, completamente coberta por garrafas das mais variadas cores e rótulos, e muitos copos de plástico em torres em meio as garrafas. Na lateral da mesa havia um freezer horizontal, e enquanto eu observava dois garotos o abriram e retiraram de lá duas garrafinhas de cerveja.

Caminhei pelas pessoas sem ter um objetivo certo, observando e procurando rostos reconhecíveis. Cheguei a ver algumas meninas da minha aula de Sociologia, mas elas pareciam estar muito animadas com sua conversa, e eu não me senti bem em atrapalhar afinal, as poucas vezes que nos falamos foi dentro da sala de aula, sobre como criar nossos projetos em grupo.

Após várias voltas passeando pelo gramado resolvi voltar para dentro, e tentar a sorte por lá.
Ao passar pela porta da cozinha me senti tentada a voltar, e procurar alguma coisa não alcoólica para beber, mas só o que eu podia ver sobre o balcão eram mais garrafas coloridas e garrafinhas de cerveja vazias. Quando dei um passo em direção à geladeira, uma menina passou por mim e a abriu primeiro. Ela parecia ter problemas com sua coordenação motora na hora de virar uma garrafa de suco dentro de seu copo meio cheio de um líquido transparente, e eu me estiquei e a ajudei. Ela me agradeceu sorrindo e saiu cambaleante da cozinha, e eu aproveitei para me servir de um pouco de suco também.

— Ainda tem suco?
Uma menina negra de cabelos cacheados e armados perguntou, ao encostar-se ao balcão com um copo vazio na mão.
— Aqui.
Virei os goles finais do suco em seu copo, e depois coloquei a garrafa na pia. Me virei para encará-la.
— Você sabe por que chamam esse lugar de Castelo?
— Por que é onde moram as “princesas”.
Ela fez aspas com os dedos e revirou os olhos.
— Estava no convite que enviaram por e-mail, você não leu?
Ela perguntou. Parei de tomar meu suco, e com o olhar tímido respondi.

— Eu não fui convidada. Vim parar aqui meio que sem querer.
— Sempre achei que elas convidavam a Universidade inteira. — Ela se apoiou no balcão, bebendo de seu suco. Seus olhos examinaram meu rosto por um instante, me fazendo sentir vontade de lhe dar as costas. No segundo seguinte pareceu perder o interesse, e deu de ombros. — De qualquer forma, sei que estavam distribuindo o endereço desse lugar em todos os eventos do Calendário Social. Com certeza, para recrutar mais calouros.

Agora estava entendendo. Já que eu não participava dos tais eventos sociais, e nem conversava com ninguém fora das aulas, era de se esperar que eu fosse a única pessoa no campus que não sabia do Castelo e sua famosa Saideira. Me senti levemente incomodada com a noção de ser a única excluída, mas ao mesmo tempo, a familiaridade da sensação era tamanha que não doeu nem a metade do que deveria.

— Devo ter passado batido. — Desconversei.
— Minha colega de quarto disse que o namorado dela veio no ano passado, e que foi a melhor festa da vida dele. Acabou me convencendo, mas quer saber? — Ela se inclinou para mais perto e sussurrou. — Ainda não consegui entender qual é a fascinação com esse lugar.

Como que cronometrado pelo universo, nesse exato momento uma música dançante começou com uma batida diferente, meio caribenha, e um monte de gente que estava na casa saiu correndo em grupo, gritando e assobiando enquanto se empurravam para passar pela porta dos fundos em direção ao gramado. A comoção foi tanta, que eu poderia jurar que Beyoncé em pessoa se preparava para um show particular na beira da piscina.

A menina de cabelos cacheados fez careta, indicando que ela também não sabia o que estava acontecendo, e nós duas seguimos os debandados pela porta dos fundos, e quando chegamos ao gramado a visão explicou exatamente e com detalhes o motivo da fascinação com o Castelo.

Um grupo grande de pelo menos vinte meninas estava no centro do gramado, em frente a piscina, e estavam vestidas em biquínis minúsculos, todos pretos. Elas dançavam uma coreografia sensual, todas bem ensaiadas e sorridentes debaixo dos gritos animados das pessoas que formavam um círculo a sua volta.

Quando a música chegou a um momento no auge da batida, elas finalizaram a dança com um abraço em grupo, como aquelas dançarinas de cancã, e se jogaram na piscina de uma vez.
Em meio aos gritos, muita gente resolveu seguir seus passos e se arremessaram também.
Enquanto eu observava ainda sem acreditar naquela cena, a menina dos cachos me cutucou e perguntou.

— Vou ao banheiro. Quer vir?
Fiz que sim com a cabeça, e nós lutamos contra as muitas pessoas em nosso caminho, de volta para dentro da casa. Quando passamos pela sala e fizemos a curva para perto da lateral do sofá, vimos uma fila de pelo menos cinco pessoas esperando para usar o pequeno lavabo, que tinha sido indicado com uma plaquinha na porta.
— Deve ter outro lá em cima, vem.

A menina dos cachos indicou a escada com o dedo, e tomou a frente ao caminhar com determinação em direção ao andar de cima. Eu a segui de perto e juntas subimos. Vimo-nos em um curto corredor lateral, e ela abriu a primeira porta que encontrou.
— É um quarto, mas tem uma porta lá dentro.
Ela entrou sem olhar para trás, e me sentindo de repente muito travessa e fora da lei, entrei junto com ela e fechei a porta atrás de mim.

Ela estava certa, havia uma porta no quarto, que era mesmo um banheiro. O quarto não era muito grande, e possuía apenas uma cama, coberta por uma colcha cor-de-rosa bem feminina, e algumas almofadas. Aliás, toda a decoração era bem feminina, desde o carpete até o abajur em formato de bailarina. Havia uma mala grande aberta ao pé da cama, cheia de roupas e sapatos, e outras duas idênticas e enormes, fechadas e encostadas contra o armário. Pelo que pude suscitar, alguém estava de mudança. Eu só não sabia se estavam chegando, ou partindo.

Depois que a menina e eu usamos o banheiro ela não se apressou, e começou a observar a decoração do quarto, tocando coisas aqui e ali.
— Será que todos aqui possuem um banheiro só para eles?
Perguntei curiosa e cheia de inveja.
— Elas. É uma república só para mulheres. — Ela respondeu ao observar as cortinas de bolinhas brancas. — E eu acho que não. Esse quarto deve ser especial.

Havia um quadro de imãs na porta do quarto, e eu parei para observá-lo. Enquanto olhava para as fotos presas nele de uma menina muito loura e bonita, a porta se abriu de uma vez, e fiquei cara a cara com a mesma menina das fotos, só que pessoalmente ela estava de biquíni, enrolada numa toalha de praia e com os cabelos molhados.
— Estão procurando alguém?

Ela perguntou enquanto passava por mim e observava a menina dos cachos colocar um porta-retratos de volta na bancada.
— Desculpe, só precisávamos usar o banheiro. Nós já vamos.
Respondi.
— Está tudo bem, não tem problema. Isso sempre acontece. As meninas sempre querem ver o quarto da rainha.
Minha colega cacheada e eu trocamos olhares, e ela segurou uma risada.
— A rainha?
— Sim, a rainha. Sabe, a representante das princesas. Eu.

Ela sorria cheia de orgulho, e eu não pude deixar de achar um pouco engraçado também.
Ela continuou.
— E eu sou a mais nova rainha a assumir o trono. Vocês perderam a coroação? Foi agora mesmo. Tem até uma coroa de verdade, mas só tiramos uma foto e depois ela volta para a caixa. — Ela fez um beicinho de criança chateada, mas o sorriso voltou logo em seguida. — A rainha que está se formando me escolheu dentre todas as outras princesas, mesmo as que vão se formar ano que vem. Eu só estou aqui a um ano, mas ela viu o meu potencial.

Seu sorriso era enorme, e eu sorri de volta educadamente.
— Uau. — Soou a voz de nossa colega cacheada. — Meus parabéns.
Ela estava sendo sarcástica, era óbvio, mas pelo jeito a rainha estava muito satisfeita com sigo mesma para perceber. Ela se encaminhou ao banheiro, e com a porta aberta começou a vestir o vestido que estava pendurado lá dentro.
— E vocês meninas? São formandas?

Ela perguntou lá de dentro. A menina dos cachos se sentou na cama e respondeu.
— Eu também sou do primeiro ano.
Ela me olhou em questionamento, e minha voz saiu como um sussurro.
— Eu também.
A rainha saiu do banheiro vestida num vestido azul marinho curto que ela colocou por cima do biquíni, e estava passando um pente pelos fios encharcados enquanto conversava.

— Uau, isso quer dizer que vão poder vir ano que vem, na primeira Saideira organizada sob o meu reinado. Vai ser ótimo, estou cheia de ideias.
Ela sorria enquanto batia um produto nos cabelos e retirava o secador de dentro da gaveta. Quando ela ligou o aparelho e começou a secar os fios, o barulho abafou o que dizia, e eu dei alguns passos pelo quarto.

Voltar ano que vem? Bom, pelo menos dessa vez eu já tinha convite, pensei. Convidada pela rainha reinante, inclusive. Nada mal.
Após um minuto ou dois ela saiu do banheiro, o cabelo ainda molhado em alguns pedaços, mas no geral muito bem estilizado e brilhando dourado contra a luz. Ela calçou uma sandália bonita e se encaminhou até a porta.

— Está na hora de voltar para a festa meninas. Vamos lá?
A menina cacheada se levantou e nós duas fizemos menção de seguir a rainha, que ia abrindo a porta. Mal ela colocou a cara para fora, e dois caras se arremessaram para dentro do quarto, a empurrando de volta e fechando a porta em suas costas. Ela deu um gritinho agudo e cruzou os braços em seguida.
— O que vocês pensam que estão fazendo? — Ela perguntou.
Foi então que eu notei que um dos caras era o garoto do cabelo castanho que havia me trazido até a festa. Ele parecia assustado, mas sorria também, nervosamente.
Sorry baby , nós ganhamos no pôquer, e alguns colegas não sabem perder.

Quem falou foi o outro cara, mais baixo e muito pálido. Ele tinha os cabelos bem ruivos e os olhos azuis, e falava com um sotaque muito carregado de quem aprendeu o português a pouco tempo.
— Nós já vamos sair, só precisamos de cinco minutos. Eles vão parar de procurar. Eventualmente.
Foi o garoto dos cabelos e olhos castanhos que falou. Nesse momento ele olhou em volta e me viu parada ao lado da menina dos cachos, as duas observando a cena. Nossos olhos se encontraram.
— Você entrou!

Ele exclamou como se isso fosse a coisa mais improvável do mundo. Para ser bem sincera, ele não sabia o quanto estava certo. Lhe lancei um sorriso tímido e baixei meu olhar, mas quando olhei novamente a rainha estava observando a cena, e tinha um meio sorriso ao dizer.
— Tudo bem, cinco minutos então. Podem ficar.
Ela se virou para mim.
— Me apresente ao seu amigo.
Devo ter ficado vermelha, e senti a garganta secar ao gaguejar as palavras e responder.
— Não somos… ele não é… ele me deu carona.

A rainha fez um sim bem lento com a cabeça e sorriu.
— Vamos conhecê-los então. Eu começo. — Ela limpou a garganta. — Meu nome é Marisa, e eu sou a nova rainha da república da rua 34, mais conhecida como a República das Princesas.
Ela sorria muito, e seus olhos dançaram pelo quarto à espera de mais alguém que estivesse pronto para falar.

My queen ! — O garoto ruivo exclamou. — É um prazer. Me chamo River , mas por aqui me chamam de Rio. Diretamente de London , à sua disposição.
Ele se inclinou e Marisa gargalhou, aliás, todos nós rimos.
— River, Rio, entendi. — O garoto dos olhos castanhos disse, se movendo para o centro do quarto a observar o lugar. — Eu sou Davi.
Ele se virou e nossos olhares se encontraram mais uma vez, e por algum motivo isso me fez travar. Nenhum músculo se mexia, e voltei a encarar o chão. Ouvi uma voz feminina ao meu lado.

— Helena. — A menina dos cachos se apresentou, levantando a mão e acenando para todos com um sorriso frouxo no rosto.
Agora todos os olhares se voltaram para mim, e senti como se uma pedra de gelo tivesse sido jogada dentro da minha camisa pelas costas. Estar no centro das atenções definitivamente não era o meu forte, e foi só quando reencontrei o olhar de Davi que consegui falar.
— Linda.
Marisa se adiantou e perguntou.
— Seu nome é Linda?
Quando confirmei com a cabeça ela completou.
— Combina com você.

3

Rio tinha um ouvido grudado à porta, e Davi parecia estar num tour por um museu muito interessante, com seus olhos e dedos vagando pelos apetrechos espalhados pelo quarto. Ele não parecia estar nem em parte tão apreensivo quanto o colega de pôquer.
Assim como Helena havia feito anteriormente, seus olhos recaíram sobre um porta-retratos dourado que ficava em cima da escrivaninha, e seu olhar se demorou na foto antes que ele voltasse sua atenção para o grupo.

— Não escuto nada, devem ter desistido da briga, mate .
Rio comentou, se afastando da porta e procurando Davi com os olhos azuis aliviados.
— Briga? Por causa de um jogo bobo?
Helena questionou, se sentando novamente na cama e cruzando as pernas para cima confortavelmente.
— Um jogo bobo valendo cinco mil. — Davi explicou, se aproximando dela.
Cash .

Rio complementou, se sentando do seu outro lado e lançando olhares espertos ao parceiro de jogatina.
— O que vocês estavam fazendo com tanto dinheiro numa festa?
Perguntei sem antes filtrar mentalmente o que dizia. Estava sinceramente passada com a falta de cuidado que eles estavam tendo com um valor tão alto em dinheiro vivo. Quanta falta de preparo financeiro!
— Viemos multiplicar nossa riqueza, é claro. — Davi explicou com um sorriso travesso nos lábios.

Marisa deu um suspiro longo e cruzou o quarto, se debruçando em sua janela para ver a entrada da casa lá em baixo. Ela observou zangada e falou.
— Já tem muito tempo que a rainha tenta acabar com esse famoso jogo de pôquer que acontece todos os anos, mas é difícil colocar juízo na cabeça desses garotos.
Ela se virou para nós e continuou.
— Já tivemos brigas feias por causa dessas apostas absurdas.
— Nós jogamos limpo, ganhamos honestamente.
Davi se defendeu.

— Ficaria surpreso com a quantidade de ganhadores honestos que ao final do jogo, saíram daqui direto para o hospital. — Marisa completou, com um olhar triste e ao mesmo tempo assustador.
Pairou sobre nós um momento de silêncio, e ninguém pareceu ter uma resposta à altura, então ninguém falou.

Enquanto observava a expressão nos rostos a minha frente, senti como se estivesse lendo um livro de aventuras, e os personagens estavam desenvolvendo a narrativa em frente aos meus olhos, ao vivo. Era uma sensação engraçada, nem tanto boa ou ruim, apenas diferente.

— Bem, ser honesto também quer dizer ser corajoso.
Helena disse, procurando não olhar para ninguém, mas eu soube o que ela estava fazendo. Queria ver como eles reagiriam, queria provocar.
— O que? Querem que a gente encare os caras?
Davi perguntou escandalizado.

— Isso não é coragem mate, é bumrrice.
— Você quer dizer burrice. — Respondi. — E eu concordo, seria mesmo muita burrice.
— Eu acho que se eles tiveram coragem para apostar, deveriam ter também para assumir as consequências.
Helena rebateu me encarando com ardor. Me senti instintivamente atacada, e por algum motivo uma parte de mim se doeu por eles, e não pude me conter. Respondi.
— Com certeza existem jeitos menos barbáricos de ser corajoso.
— Eu sei de um jeito. — Marisa comentou com energia.

— Vocês podem parar de falar sobre nós como se não estivéssemos aqui?! — Davi gritou exasperado. — E eu posso me defender sozinho, muito obrigado!
Ele não parecia agradecido, ao contrário, estava claramente ofendido, e o olhar gelado que me lançou me fez baixar o meu, e recolher os ombros de vergonha.
— Calma pessoal. Somos todos amigos aqui, não? Friends .

Rio se levantou e acenou com as mãos, tentando baixar os ânimos. Marisa se aproximou dele com um sorriso malicioso.
— A República das Princesas só conhece um jeito de provar coragem E… — Ela enfatizou o “e”, de forma que todos os olhares recaíram sobre ela. — criar laços de amizade para durar uma vida toda.
Ela olhou em volta para manter o suspense, e no segundo seguinte quando todos aguardavam ansiosamente, concluiu.

— Um jogo de Verdade ou Desafio.
Um suspiro coletivo soltou-se no ar, e todos demos risadas irônicas. Helena se levantou da cama e deu alguns passos em direção a porta do quarto.
— Eu sabia que seria algo incrivelmente bobo. Fala sério princesa, isso é para adolescentes.

— Eu sou a rainha! — Marisa a corrigiu. — E do jeito que nós jogamos, não tem nada de bobo. Só tem que seguir nossas regras.
Helena ainda estava a um passo da porta, mas parou no lugar para ouvir a conversa. Davi e Rio agora pareciam interessados no assunto, e se aproximaram de Marisa cheios de perguntas.

— Como se joga? Eu gosto de games .
— Tem ganhador no final? Por que se tiver ganhador, tem que ter prêmio.
— Podemos apostar dinheiro. Quem tem cash?
— Não! — Marisa ressoou pelo quarto, silenciando os dois tagarelas. — Jogamos pelo prazer de ser considerado o mais corajoso, e se uma amizade aparecer ao longo do caminho… Bem, podemos considerar isso como um bônus.
Todos os olhos naquele quarto passearam de rosto em rosto, examinado e analisando cada um. Marisa tinha aquele sorriso confiante no rosto, e Helena parecia não estar mais interessada em sair. Estava com os braços cruzados, parada de costas para a porta, observando. Davi e Rio pareciam estar se comunicando por ondas cerebrais, e após alguns segundos de consideração, Rio deu o veredito final.

Let’s play !
Marisa deu um gritinho agudo, depois um pulinho, e em seguida se jogou no carpete, se sentando em posição de índio e acenando para que todos fizessem o mesmo. Em alguns segundos, após Helena e eu enrolarmos um pouco, estávamos os cinco sentados em círculo no centro do quarto, em cima do carpete rosa chá da rainha Marisa.

Ela limpou a garganta, pediu muita atenção para a explicação das regras, e começou a falar. Basicamente a forma como se joga Verdade e Desafio por aqui é completamente diferente. Não que eu seja totalmente entendida do assunto, mas mesmo uma adolescente que não participava da brincadeira, por assim dizer, chegou a ver o jogo acontecer em filmes, seriados e entre os colegas nos intervalos das aulas na escola. Ao menos eu tinha alguma ideia de onde estava me metendo. Sem falar que só por estar aqui, nesse momento, eu já teria muito mais coisas para contar em casa amanhã do que poderia ter imaginado nos meus sonhos mais loucos. Mas eu via potencial nessa noite, e queria deixar minha mãe tão feliz com minhas “aventuras” como deixava com minhas notas.

Tratava-se de um jogo muito simples, do ponto de vista analítico. Haveria duas rodadas, apenas. A primeira seria apenas de “Verdade”, e a seguinte apenas de “Desafios”. Na primeira, cada pessoa teria direito a fazer uma pergunta, de qualquer natureza, para outra pessoa, até que todos no círculo tivessem tanto perguntado como respondido. E na segunda fase, todos dariam ideias de desafios interessantes, e decidiríamos juntos qual seria o desafio que todos teríamos que fazer. E ao final do jogo, quem realizasse o desafio primeiro, seria o vencedor. O corajoso.

— Parece divertido. — Rio comentou.
— Seria mais se houvesse algum prêmio em dinheiro. — Davi rebateu.
Helena e Marisa bufaram audivelmente, e eu observei Davi levantar as mãos apologeticamente.

— Certas coisas não têm valor monetário Davi. — Marisa usou um tom maternal e sábio que era fácil de escutar. Os garotos pareciam convencidos.
My queen. Como começamos?
Rio perguntou, e todos os olhos recaíram sobre Marisa mais uma vez.
— Tudo bem. Começamos com as perguntas. Prontos?
Davi e Rio acenaram entusiasmadamente, e Helena pareceu obrigar-se a concordar com um movimento positivo simples com a cabeça.

Marisa e eu mantivemos contato visual, seus enormes olhos castanhos brilhando de excitação, seu sorriso tentando me convencer. Finalmente, após um breve olhar na direção de Davi, que não sei explicar bem por que o fiz, eu concordei.
— Muito bem, quem quer ir primeiro?
Marisa perguntou, e antes que qualquer um de nós pudesse se manifestar, Rio se adiantou.

— Faça as honras, your majesty .
— Obrigada Rio. — Marisa lhe lançou um sorriso enorme, que deixou o rosto do garoto queimando de vermelho.
Ela levou um bom tempo apertando os lábios e procurando por inspiração para iniciar o jogo, e impacientemente Helena lhe apressou.
— Você não conhece ninguém aqui Marisa, não existe nenhuma pergunta para a qual você já tenha uma resposta. Pergunte logo!

— Está bem, apressadinha! — Marisa respondeu fingindo estar ofendida, mas ainda sorrindo abertamente. — Só por isso, vai responder a primeira pergunta.
— Ótimo, manda ver.
Helena tinha sua atitude superior e autoritária no mais alto nível de força nesse momento, e empinou o nariz para o alto enquanto esperava pela pergunta.
— Qual é o nome da pessoa mais interessante que você conheceu durante seu primeiro ano aqui na Universidade? E não vale dizer o nome de um professor, eles são todos interessantes do ponto de vista acadêmico.

A primeira coisa que senti foi um grande alívio de não ter sido a pessoa que teria que responder a essa pergunta. Afinal, quando penso em pessoas interessantes, apenas professores me veem à mente. E após observar o efeito que a pergunta teve em Helena, o que senti em seguida foi uma profunda curiosidade com relação a sua resposta.
Ela perdeu sua pose, baixou o olhar para as mãos e não o levantou mais. Era óbvio que ela não queria responder.

— Vamos, responda Dona Mandona. E tem que ser sincera. — Marisa disse sorrindo, lhe apontando o indicador.
— E se eu não for? — Helena questionou, ainda sem olhar para ninguém.
— Ser honesto também quer dizer ser corajoso.
Davi devolveu na hora. Ele tinha um olhar muito duro, mas se suavizou logo em seguida, quando Helena levantou seu olhar para encará-lo. Os dois se observaram até que Helena remexeu nos cabelos volumosos, fechando os olhos em reflexão. Ela se aprumou no lugar, e com os olhos em Marisa falou.
— Um colega de classe. Pedro.

A reação foi geral. Marisa deu risadinhas felizes, eu não conseguir evitar e também dei risadas. Davi e Rio se ocuparam em repetir o nome do garoto de novo e de novo em vozes finas femininas, fazendo caretas e cutucando Helena, até que ela cedeu e abandonou a expressão emburrada, rindo conosco e escondendo o rosto com as mãos.
Ela falou em seguida.

— Ok, ok, seus chatos. É a minha vez, certo?
Marisa fez que sim com a cabeça em confirmação, e Helena sem titubear se virou para Rio e perguntou na bucha.
— Para você brit boy. O que pretende fazer com o dinheiro que ganhou no jogo de pôquer?
Por essa eu não esperava. Ela estava tão decida a saber a resposta, quanto ele a evitar revelar-se.
Rio e Davi trocaram olhares, e eu percebi que Davi tinha dúvida em sua expressão. Ele também queria saber a resposta.

Rio pareceu lutar contra si mesmo, e quando seu olhar retornou para o de Helena ele sorria novamente, um sorriso debochado e menino.
— Nada.
O silêncio reinou mais uma vez entre nós, só que dessa vez não era um silêncio desconfortável, mas sim de pura incredulidade.
Troquei olhares com as meninas, e nenhuma delas pereceu estar satisfeita com a resposta.
— Fala sério. — Helena disse acusatoriamente.

— Nada? — Davi perguntou. Ele tinha uma linha de expressão muito profunda na testa. Estava intrigado. — Queria ganhar dois mil e quinhentos reais para nada?
Rio respondeu com muita tranquilidade.
— É a verdade.
— Por que jogou então? Por que arriscou apanhar daqueles caras? — Davi questionou, sua linha de expressão ficando mais profunda a cada segundo.
— Ele já respondeu a uma pergunta Davi. Vocês podem conversar sobre isso depois que o jogo acabar.

Marissa disse, estranhamente assertiva. Davi se escandalizou.
— Mas não faz senti…
My turn, right? Eu tenho uma pergunta.
Rio começou e Davi parou de falar, fazendo cara de bravo e confuso. Eu não consegui identificar o motivo de sua chateação, afinal Rio pareceu ser bem sincero quando respondeu à pergunta de Helena. E se ele queria arriscar uma surra no meio de uma festa, por um dinheiro que não tinha importância nenhuma para ele, isso era seu problema, e de mais ninguém.

Rio virou-se para Marisa, e retomando sua expressão feliz e despreocupada perguntou.
Tell me, my queen . O que tenho que fazer para conseguir seu coração?
O sorriso maroto de Rio lhe tomava o rosto, e Marisa pareceu apenas levemente surpresa com a pergunta. Ela jogou os cabelos louros e longos para um dos lados, e bateu os cílios em preparação para a grande revelação. Depois se apoiou numa das mãos e respondeu com a voz muito calma e tranquila.

— É simples. Você tem que merecer.
A expressão de Rio desabou, e as maçãs de seu rosto ficaram vermelhas na hora. Ele chegou a abrir a boca para falar mas, Marisa se virou, ignorando as expressões de puro choque em nossos rostos.

— Linda, eu já fiz a minha pergunta, então agora é a sua vez.
Seu olhar sambou entre o meu e o de Davi, e eu senti a garganta fechar na hora. A sensação de estar sob a mira dos olhares me deixou com borboletas no estômago.
Quando o olhar dele atingiu o meu, a sensação foi mais forte ainda. Sustentamos o olhar um do outro por vários momentos, até que perdi a batalha e encarei minhas mãos no colo, envergonhada.

— Vai garota.
Helena disse grosseiramente, mas diferentemente de seu tom de voz, seu olhar em minha direção era amigável, até terno. Me senti mais segura instantaneamente, e levantei o rosto ao perguntar.

— Você está tendo problemas com dinheiro?
Davi baixou o olhar momentaneamente, mas ao contrário do que eu esperava, usou um tom brincalhão quando respondeu.
— Acho que você precisa TER dinheiro, antes de ter problemas com ele.
Eu sabia que aquele tom de brincadeira não estava convencendo ninguém, mas numa decisão coletiva feita mentalmente, ninguém falou nada sobre a expressão triste em seu olhar ou sua resposta incrivelmente vaga.

Fiquei grata quando ele limpou a garganta e quebrou a tensão daquele momento, me olhando mais uma vez e se preparando para falar.
— Eu… Não sei o que perguntar. Alguém quer ir no meu lugar?
A decepção que me ocorreu naquela hora foi muito maior, e mais devastadora do que qualquer um poderia ter imaginado. Meu coração se partiu em dois, e meu olhar encontrou minhas mãos mais uma vez.

— Não é assim que funciona. Você tem que fazer uma pergunta, ou não passamos para a próxima rodada. — Marisa respondeu com uma expressão muito chateada.
— Vamos, faça uma pergunta. Não aguento mais ficar aqui nesse quarto com vocês perdedores.
Helena respondeu depois de me lançar um olhar muito preocupado.
What loosers? — Rio rebateu ofendido.
— Está bem. Então…

Davi começou, muito entediado e sem parecer interessado em mais nada que não fosse acabar logo com as perguntas.
— Por que você veio para a Saideira?
Mal as palavras deixaram seus lábios, e eu senti os meus se moverem mais rápido do que meu cérebro.
— Por causa de você.

Davi me fuzilou com um olhar de total surpresa, que eu sustentei assustada. Devo ter ficado muito vermelha, por que senti o rosto afoguear e o coração acelerar de uma vez. Os olhares do resto do grupo estavam tão ou mais chocados, e eu vasculhei o cérebro em desespero, procurando remediar. Gaguejei mais um pouco.
— Quero dizer… por que você, sabe, me ofereceu a carona e… bom, eu não quis… não queria parecer mal agradecida e eu… eu só, sei lá, aceitei.
A cara de choque de Marisa se transformou num enorme sorriso, e Helena também sorria, só que mais contida.

Meu olhar travou na direção do carpete no centro do círculo, e por lá ficou até que a voz de Marisa soou novamente.
— Certo. Bom, eu acho que essa fase do jogo foi muito informativa, não acham?
— Ha sim, muito. — Helena rebateu com seu tom de ironia que já estava se tornando familiar.
Yeah , com certeza.
Rio completou, devorando Marisa com seu olhar.
Após receber a confirmação que esperava, Marisa voltou a falar. Fixei minha atenção nela, incapaz de olhar para qualquer outra pessoa, com medo de encontrar o olhar de Davi no caminho. Imaginei que o revirar do meu estômago naquele momento pudesse me fazer desmaiar de nervoso ali mesmo.

— Agora passamos para a parte mais emocionante. O desafio. — Ela sorriu seu sorriso de miss, e continuou. — Alguém tem alguma ideia? Vamos tentar ser originais.
— Precisa ser feito aqui dentro do seu quarto? Por que isso limita bastante as possibilidades.
Helena comentou, e Rio tratou de responder.
— As possibilidades são poucas, mas interessantes.
Seu olhar vagou para a cama, e Helena revirou os olhos em desaprovação. Marisa balançou a cabeça, e ignorando o comentário pervertido respondeu.

— Não precisa ser feito aqui, pode ser em qualquer lugar, na casa, no bairro, na cidade. Não importa. Na verdade, um pouco de dificuldade pode deixar as coisas mais imprevisíveis.
Seu olhar dançou por todos os rostos, e ela se cansou de esperar.
— Que tal convencer algum cara aqui da festa a se vestir de mulher e dançar Lady Gaga!
Helena e eu rimos, e foi Davi quem respondeu.
— A maioria dos caras aqui já está bebendo a horas. Isso não vai ser nada difícil.
Ouve uma concordância geral, e Rio falou em seguida.

— Podemos ver quem fica mais tempo acordado.
— Não dá certo. Todos nós somos capazes de aguentar por uma noite, e amanhã de manhã estou indo para casa, não vou poder continuar competindo. — Marisa falou.
— Eu também. — Completei baixinho.
— Pessoal, vamos pensar em algo mais desafiador.
Marisa parecia estar mais animada do que todos os outros juntos, e foi Helena quem sugeriu em seguida.

— Podemos roubar um carro.
— O que?! Isso não é um desafio, é um crime!
Respondi indignada. Eu não participaria mais do jogo se houvesse a real possibilidade de amanhecermos na cadeia da cidade.
— Está bem, vamos ouvir a sua ideia então.
Helena usou sua voz ameaçadora, e eu pensei rápido.

— Certo, podemos… Podemos ver quem consegue tirar uma foto com um professor primeiro.
Boring!
Rio comentou fingindo estar bocejando, e eu abaixei a cabeça mais uma vez.
— Que tal tirar uma foto com um professor, dentro do quarto dele? — Helena sugeriu.
— Na casa do professor? — Perguntei, escandalizada.
— Que tal, tirar uma foto com algum pertence do professor? — Marisa se animou.

— Boa! — Helena respondeu. — Mas como vamos saber quem tirou a foto primeiro?
Todos ficaram em silêncio, e eu tive uma ideia que resolveria o problema imediatamente, mas me senti tão culpada por estar colaborando com quem pretendia roubar algum pertence de um professor, que não consegui proferir as palavras na mesma hora.

Meu olhar vagou pelos rostos, todos em profundo estado de reflexão, procurando pela resposta. Finalmente me dei por vencida e disse baixinho.
— Eu sei como.
Olhares de esperança e expectativa recaíram sobre mim, e senti uma minúscula vontade de me retrair e desaparecer por traz de uma capa da invisibilidade. Engoli em seco e falei com pressa, como que fugindo da vontade de sumir.

— O desafio vai ser conseguir algo que pertence a um professor, desde que você possa provar que pertence mesmo a ele, e tirar uma foto com o pertence em frente ao relógio da torre da biblioteca da Universidade.
Todos os rostos se iluminaram, e sorrisos se espalharam pelo lugar.
— Não tem erro. Quem tirar a foto primeiro ganha.

Davi disse, claramente animado com a possibilidade de ganhar mais um jogo aquela noite. De repente me senti muito satisfeita. Ele me lançou um olhar rápido, porém amigável, e eu ganhei a coragem que me faltava.
Em seguida troquei olhares sorridentes com Helena, Rio, e finalmente Marisa, e por fim ela se preparou para se levantar do carpete quando falou.
— Desafio lançado, vamos nessa!


Clique AQUI para adquirir agora a sua cópia digital ebook na Amazon!

Anúncios