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Minha Lista
de Coisas
Para Viver

Ana Luiza Medeiros

Direitos Reservados, 2016

1

Eu estava em uma missão. E foi com muito orgulho que retirei da bolsa o celular que mais parecia um computador de mão, toquei no último item da lista com o indicador, e o aplicativo automaticamente passou uma linha vermelha em cima da frase “comprar o presente da Lili”. Declarei para mim mesma e para o mundo em pensamentos: “Missão cumprida!”. Tem sensação melhor?

Depois de recolocar o aparelho na bolsa, receber o pacote embrulhado para presente da vendedora, e tomar o rumo de volta ao estacionamento do Shopping, fui enumerando mentalmente os itens das outras listas que constavam em aberto, aguardando por mim e meu ávido dedinho para serem riscados de vermelho tão logo as tarefas fossem cumpridas. Um sorrisinho para mim mesma me confortou ao lembrar que estava muito perto de riscar mais um item de uma das listas, assim que chegasse em casa. Essa pequena satisfação pessoal não poderia ter chegado em melhor hora, mas me recusei a pensar nela naquele momento e, com uma sacudida no cabelo, afastei o pensamento infeliz da cabeça. Ajustei o volume do som do carro e dirigi para fora do estacionamento, rumo à luz do dia que ia sumindo vagarosamente além das cancelas automáticas do Shopping.

As duas sacolas extremamente cheias faziam meus braços doerem enquanto eu aguardava o vagaroso elevador do prédio onde moro chegar finalmente ao sexto andar. Antes de me contorcer em busca das chaves, por instinto apertei um dos ouvidos contra a madeira polida da porta e imediatamente identifiquei as vozes femininas lá dentro. Sem cerimônias, dei dois chutes com os bicos do meu sapato de couro preto na porta, e esperei enquanto alguém do lado de dentro remexia no chaveiro e destravava as muitas fechaduras. Quando a porta abriu, foi Rapha quem me recebeu com a franja colorida de verde obstruindo a vista, e os pés descalços no piso gelado, o que me obrigou a lhe lançar um olhar de reprovação.

— Me diz que tem um pedaço de pizza escondido aqui dentro. — Ela disse, alcançando uma das sacolas e me aliviando o braço direito.

— O que você acha? — Respondi.

Ela sabia que pizza seria o jantar porque estava na lista da semana, detalhada na parede da cozinha em um quadro branco. Com uma caneta pincel azul, eu anoto o cardápio para os dias em que vamos jantar em casa juntas, ou seja, os dias em que Malu está de folga. Em uma coluna lateral, fica o espaço para a lista de tudo que precisa ser comprado para casa, como temperos ou sabonete.

— A Malu ainda vai preparar a massa, vai demorar séculos. Posso ao menos comer um biscoito enquanto espero? — Rapha me perguntou em tom de menina birrenta enquanto caminhávamos para a cozinha com as sacolas.

Malu se levantou do sofá onde pintava as unhas dos pés enquanto assistia a um filme de animação e, apoiada nos calcanhares, nos encontrou na cozinha.

— Só vai levar uma hora, no máximo. Menos se me ajudarem. — respondeu ao passar por nós duas e abrir a porta do armário abaixo da pia, atrás de uma tábua de madeira pré-histórica que ela usava para cozinhar tudo.

Malu e Rapha são as minhas companheiras de apartamento. Resolvemos morar juntas para dividir as contas, já que quando saímos da faculdade, Malu mal se mantinha viva com o salário de ajudante do ajudante do cara que lavava pratos no restaurante. E Rapha e eu lutávamos contra tudo e todos por vagas para estagiar em empresas que contratavam quatro pessoas pelo salário de uma. A nossa salvação foi o surgimento de um santo em nossas vidas. No auge da pindaíba, quando estávamos as três formadas e com a corda no pescoço, loucas para sair da casa dos pais e começar uma vida mais independente, Carlinhos, nosso colega de turma em uma das classes do curso de Português, teve a felicidade de ganhar na loteria. É isso mesmo. O sortudo apostou em um desses sorteios que rolam por aí e ganhou. Meio milhão de reais, para ser mais exata.

Em uma tarde, após eu e Rapha sairmos de mais uma sessão de tortura também conhecida como entrevista de emprego, e Malu encerrar mais um dia particularmente intenso de trabalho no restaurante de esquina no qual era escrava por oito horas diárias, nos encontramos para comer um sanduiche na cantina da faculdade. Era a última semana de aulas e a formatura era dali a duas semanas. Estávamos conversando sobre a impossibilidade financeira de morarmos sozinhas, já que nenhuma de nós tinha ao menos um contracheque decente para usar no ato do aluguel, quando Carlinhos se aproximou.

— Se vocês quiserem, podem morar comigo.

O silêncio foi total. Não só paramos de conversar e mastigar, mas acho que cheguei a ouvir grilos ao fundo, como em uma daquelas cenas cômicas de cinema pastelão.

Carlinhos explicou que com o dinheiro do prêmio ele comprou um apartamento no último andar de um prédio não muito longe dali (“Vou poder andar para a aula todos os dias, então achei prático”, ele disse. Me senti mal ao apontar que não se esperava que ele fosse universitário pelo resto da vida, e fazer um investimento por causa da proximidade da faculdade era uma burrice.). Disse que o local era bem espaçoso e que ficaria feliz em dividir com a gente, contanto que fizéssemos a limpeza e cozinhássemos para ele de vez em quando. Depois de alguns minutos de discussão sobre os detalhes da operação, decidimos aceitar a oferta. Rapha e eu nos encarregaríamos da limpeza, Malu ficaria por conta das refeições e Carlinhos nos deixaria dividir o quarto extra e fazer uso de todas as dependências do apartamento, concordando até com a regra geral de nos avisar com antecedência sobre festas e convidados, e sobre a obrigação de usar sempre roupas na presença das coleguinhas. Trato feito.

Moramos juntos desde então, até que Carlinhos se casou e, em vez de nos colocar para fora como seria esperado, comprou uma grande casa com jardim e garagem para três carros em um bairro nobre da cidade e se mudou para lá com a esposa, Patrícia. Eles tiveram uma filha, a Lili, e o aniversário dela de um ano era no dia seguinte. Quanto ao apartamento, fizemos um sorteio para decidir quem ficaria com o quarto que Carlinhos estava deixando, e eu ganhei a honra de ter um quarto só para mim. Concordamos em pagar o aluguel justo do imóvel enquanto Carlinhos achasse que pudéssemos ficar. Ele diz que um banheiro limpo e refeições caseiras todos os dias por quase cinco anos foram o suficiente para garantir que só nos mudaríamos dali quando quiséssemos.

Mas aqui está o segredinho que não ousamos dizer em voz alta: nós não queremos. Malu agora é a chef de um dos restaurantes mais comentados da cidade, Rapha é professora de Língua Portuguesa em duas escolas particulares diferentes, e eu faço revisão e edição em uma das maiores editoras do país. A verdade é que todas nós poderíamos morar sozinhas e pagar as próprias contas sem o perrengue de outrora, mas para que mexer em time que está ganhando? Eu não tenho o menor talento para a cozinha, porém Malu não nos deixa ficar sem ao menos uma refeição deliciosa feita por ela por dia, além das que ela trás do restaurante. Rapha não suporta programar nem um segundo sequer de sua vida, e nasceu sem a parte do cérebro que nos permite organizar ou colocar ordem, o que eu faço de olhos fechados, por ela e por mim. Malu, por sua vez, não tem tempo para nada por causa das suas exaustivas horas de trabalho, e tem como eu, uma tendência a se levar muito a sério. E Rapha se encarrega de não deixar que viremos um par de zumbis: do trabalho para casa e de casa para o trabalho, como se tivéssemos cinquenta anos. Vê só? A gente se completa, não dá para simplesmente trocar toda essa cumplicidade por um pouco de espaço a mais no armário do banheiro, ou mais alguns minutos no chuveiro pela manhã. Às vezes dá a impressão, olhando de fora, de que seria uma boa ideia mas, confie em mim, estamos bem assim.

Rapha se encarregou de retirar as compras de dentro das sacolas, e agora estava enfiando tudo no armário ao lado da geladeira da maneira como ia cabendo.

— Orégano? — Malu esticou a mão na minha direção e automaticamente lhe entreguei o pote que comprei antes de vir para casa, que Rapha ainda não tinha guardado.

Dei a volta na mesa de quatro lugares onde Rapha agora se sentava, satisfeita por ter terminado de guardar as coisas, passei a mão na caneta pincel vermelha que ficava em um suporte ao lado do quadro, e risquei a palavra “orégano” da lista na coluna lateral. Era a única que faltava riscar no quadro. Todas as outras, inclusive as refeições, estavam riscadas, exceto pelo item sexta-feira que dizia “pizza da Malu/jantar”. Ela havia passado duas semanas dividindo a cozinha com um pizzaiolo convidado pelo dono do restaurante para ensinar sua equipe a fazer algumas delícias italianas para o novo cardápio de inverno. Nem preciso dizer que não só Malu amou as aulinhas, como fez questão de colocar as novas habilidades em prática em casa também. Sorte a minha, que adoro quando ela resolve fazer coisas novas e variar a comidinha mais ou menos do restaurante da esquina do meu trabalho onde almoço, e decepção para Rapha, que ficaria muito mais feliz se pudesse simplesmente passar a mão no telefone e pedir uma pizza da pizzaria do bairro.

Enquanto me colocava à frente do armário ao lado da geladeira, e começava a reorganizar tudo o que a Rapha colocou no lugar errado, ela continuava a choramingar como se tivesse passado a semana toda em greve de fome.

— Maluzinha, me faz um sanduiche de queijo. Só vai levar um minuto.

— Vai estragar o seu apetite! Se você me ajudar, a pizza vai sair bem mais rápido. Vamos, comece a ralar o queijo. Toma aqui.

Malu passou o ralador e o pedaço de queijo para Rapha, que com uma careta azeda aceitou o presente e se pôs a ralar. Ela já estava em um estágio bem avançado da massa e com uma mancha de farinha de trigo na bochecha, quando me virei para o pacote de presente que havia ficado sobre a mesa junto com minha bolsa.

— Imagino que no cartão de aniversário da Lili eu só precise assinar por mim, certo?

Antes mesmo de terminar de falar eu já sabia que estava errada. Rapha parou de ralar o queijo, me olhou de lado com a franja verde escorrendo pela testa, e fez um bico choroso. Malu, por sua vez, virou-se ainda com a massa na mão e abriu a boca como se quisesse falar, mas sem saber exatamente o quê.

— Na verdade… — Malu começou, mas eu acenei com a mão para lhe poupar da necessidade de criar a desculpa perfeita por não ter comprado um presente.

— Ok, ok. — Respondi enquanto alcançava o envelope cor de pêssego e uma caneta que estavam dentro da minha bolsa, sentei-me ao lado de Rapha à mesa e assinei o cartão por nós três.

— Esqueci completamente o presente, você é uma salva-vidas Alba. — Rapha comentou ao revirar o pedaço de queijo nas mãos.

Dei um sorriso fraco e finalizei as assinaturas. Eu já sabia que isso iria acontecer. Malu está sempre muito ocupada para pequenas tarefas como esta, e Rapha simplesmente não se lembra de nada fora de sua rotina a não ser que eu escreva em cinco pedaços de papel diferentes e espalhe-os pelo seu caminho, ou a relembre a cada minuto.

Enquanto passava as pontas dos dedos pelo desenho dos balões coloridos que enfeitavam o cartão, fui criando coragem para comentar sobre o que havia acontecido. Comecei com a voz baixa, como se o assunto fosse de mínima importância.

— Então, hoje a Dona Celi me chamou depois do almoço…

Pude sentir a tensão preencher a cozinha. Rapha e Malu se viraram para me encarar com olhos esbugalhados. Tamanha foi a pressão, que me senti obrigada a baixar o olhar e me concentrar nos balões.

— E ela disse que estou melhorando, mas…

— Ah, droga. — Rapha sussurrou, mas eu pude ouvir a decepção em sua voz.

— Alba… — Malu começou em tom de pena, e aquilo me deixou pior.

— Não, está tudo bem, é sério. Ela me deu mais algumas dicas, disse que eu poderia refazer alguns capítulos, só pediu para que eu desse mais… — Minha voz falhou por um instante, e terminei com um sussurro — …Mais vida aos personagens.

A cozinha ficou silenciosa e eu não sabia o que era pior: ficar ali no silêncio gritante, ou ouvir as justificativas que as duas inventariam para me animar. Para tentar fugir das duas opções eu me levantei, peguei minha bolsa e sai da cozinha sem olhar para ninguém.

Ao entrar em meu quarto, encostei a porta e me joguei na cama, me aconchegando nas almofadas cor de caramelo. Minhas mãos bem treinadas não esperaram o comando, e logo alcançaram o celular dentro da bolsa. Com dedos ágeis, passeei pelas listas e mais listas no aplicativo até encontrar a lista intitulada “Sexta à noite”. Os seguintes itens permaneciam em aberto, em letras roxas:

  • Corrigir ao menos um capítulo
  • Pendurar o vestido floral
  • Retornar os e-mails (3)
  • Ajustar o despertador para 9h30min
  • Colocar as roupas sujas no cesto/colocar o cesto no carro/colocar lavanderia na lista de sábado

Já estava terminando de retornar o último e-mail do dia, era para um senhor que tinha dúvidas quanto ao endereço da livraria onde faria o lançamento de seu livro “O que eu aprendi com os índios”, quando Malu e Rapha bateram à porta e entraram com passos leves e olhares pesados.

— Como vai a pizza? — Tirei meus olhos do computador por um segundo para encará-las, mas logo os desviei de volta para o texto que digitava. Aquelas expressões de pena que eu tanto conhecia só me faziam querer me arremessar da janela do quarto, o que nunca é um bom sinal.

— Crua. — Respondeu Rapha, que mesmo segura da missão de me confortar, ainda não podia deixar de expressar seu ressentimento com relação ao jantar demorado.

— Alba, conta o que ela disse. — Malu se sentou na beira da minha cama e colocou as mãos cruzadas sobre as coxas. Não estavam mais sujas de farinha, mas a mancha branca em sua bochecha ainda estava lá.

Levantei-me da cadeira em frente a mesa onde apoio o computador e cruzei os braços, de frente para a janela escancarada onde o vento leve soprava no meu rosto uma brisa fria e seca.

— Disse o mesmo que sempre diz. Que meus personagens não têm voz, são apagados. E que o enredo precisa de mais emoção, de mais acontecimentos. Diz que minha história toda precisa de mais vida.

Essa última parte saiu um pouco mais amarga do que eu pretendia. Já havia escutado essas palavras tantas vezes da boca da Dona Celi que estavam começando a perder o sentido.

Dona Celi era a editora-chefe da Editora Folhetim, onde trabalho. Foi ela quem me deu a minha primeira oportunidade como revisora de livros, que já tinham passado por um editor profissional. Tudo o que eu tinha que fazer era procurar por erros, listá-los e corrigi-los. Nem preciso dizer que o trabalho me caiu como uma luva, mas eu sabia que ele só seria o primeiro passo para a realização de um sonho antigo: ter meu próprio livro publicado. Claro que a parte de ainda não ter escrito o tal livro não importava, porque eu estava adquirindo experiência, me acostumando com o ambiente editorial e criando intimidade profunda com as palavras, coisa que o diploma de bacharelado em Português fez em parte, mas não completamente.

Depois de alguns meses trabalhando com revisão, Dona Celi me proporcionou uma nova e maravilhosa oportunidade, a de poder atuar como revisora oficialmente.

Eu fiquei muito agradecida. Trabalhei em muitos originais incríveis, conheci muita gente que escreve como eu sonhava um dia poder escrever, o que me deu o empurrão final. Comecei a esboçar o que eu acreditava que seria o meu romance de estreia, a minha carta de apresentação para o mundo dos best-sellers, coisa certeira.

Bom, eu ainda não desisti da minha obra-prima, mas tenho que admitir que, após quatro anos e inúmeras revisões por parte da Dona Celi, meu romance ainda não saiu da gaveta. Ela continua a encontrar imperfeições, e eu continuo a reescrever e revisar, em um eterno ciclo sem fim.

Confesso que tive momentos de raiva, frustração e até dúvidas quanto à minha capacidade de realizar o meu sonho, mas quando olho para trás e para tudo que Dona Celi não apenas alcançou em sua carreira, mas também tudo que ela fez por mim, não posso me permitir duvidar de seu julgamento. Se ela diz que não está bom, então é porque não está e pronto.

Rapha e Malu não concordavam com ela.

— Não acredito nessa mulher! Quantas vezes ela vai fazer você passar por isso? Quantas vezes você vai se submeter a essa humilhação? — Malu se alterou ao caminhar até mim.

— Ela não faz por mal! — Respondi, sem me desviar da janela.— Ela sabe do que está falando. Se diz que não está bom, então…

— Ela não é a única editora do mundo, Alba. — Rapha comentou com sua voz de menina doce que em nada combinava com sua aparência rock and roll.

— A Rapha está certa. Procure uma segunda opinião. — Malu cruzou os braços em frente ao corpo, como faz quando está dando um sermão. Sua firmeza na voz, e o fato de ser mais alta que eu uns dez centímetros, fez com que parecesse mais assustadora do que realmente era.

Suspirei alto e me sentei de volta em minha cadeira do computador, porque de repente, me senti muito cansada. Já tínhamos tido essa mesma discussão umas mil vezes, e a conversa sempre tomava o mesmo rumo. Rapha e Malu insistiam para que eu procurasse outras editoras que se interessassem pelo meu livro, e eu sempre respondia com o argumento mais lógico que eu sabia que elas não tinham como rebater. Se eu trabalho com uma das melhores no ramo, por que diabos iria procurar passar pelo processo de puro calvário que é conseguir que uma editora receba um original de um autor desconhecido e sem nenhuma referência?

— Peça que a Dona Opinião de Ouro lhe escreva uma carta de recomendação. É o mínimo que ela pode fazer.

Elas sempre diziam. Mas não sei de onde tiraria coragem para pedir tal favor, quando, em minha cabeça, seria exatamente o mesmo que eu lançar mão de uma espada digna do próprio Rei Arthur e cravá-la com toda a minha força em suas costas. Quero dizer, depois de tudo que ela fez por mim, todas as oportunidades, eu simplesmente pediria que me recomendasse para outra editora? Em outras palavras, “Se não for muito incômodo, a senhora poderia esquecer todas as vezes que se dispôs a ler meu texto, todos os momentos que tivemos para discutir sobre ele, simplesmente ignorar o seu instinto baseado em anos de experiência e me referenciar para outra ótima editora enfatizando, contra sua própria opinião profissional, o quão brilhante e altamente publicável é o meu humilde original?”

— Vocês não entendem. — Respondi me virando para a tela do computador, e fingindo digitar um e-mail para ninguém.— Eu anotei direitinho tudo o que ela me falou, todos os conselhos. Vou refazer as partes ruins e depois vai ficar tudo certo. E daí, com cer…

— …teza ela vai publicar. — Rapha e Malu fizeram coro para a última parte da frase que, preciso admitir, já cansei de repetir.

Um momento de silêncio se estendeu pelo apartamento enquanto eu ignorava o que minhas amigas faziam paradas atrás de mim. Mas, como se tivesse algum tipo de terceiro olho na nuca, eu podia ver nitidamente os olhares de cumplicidade que trocavam naquele instante, se comunicando sem palavras, as mesmas ideias que já eram notícia velha naquela casa.

Malu quebrou o silêncio:

— O forno já deve estar quente agora. Vou colocar a pizza para assar, só vai levar mais alguns minutos.

— Ounnnnnn! — Rapha soltou um muxoxo de tristeza e fome, e a acompanhou para fora do meu quarto arrastando os pés.

Só depois de ouvir o barulho das duas na cozinha foi que apaguei o e-mail para ninguém, fechei o computador e me voltei para o celular. Queria terminar a lista antes do jantar, mas não estava confiante de que conseguiria. Meu vestido já se encontrava esticado no cabide atrás da porta, o cesto de roupas já estava cheio e me esperando ao pé da cama, o despertador aguardava os minutos para gritar na manhã seguinte, e o último e-mail do trabalho já devia estar na caixa de entrada do autor, esperando para ser lido. Tudo pronto, exceto…

Encarei a capa de couro marrom do meu notebook, que me encarou de volta sem titubear. Ficamos ali, olhos nos olhos, ou melhor, olhos no couro por vários segundos, um provocando o outro a dar o primeiro passo.

Ressentida com a capa de couro por ter vencido a batalha, me levantei, passei a mão na toalha e me dirigi ao banheiro para um banho demorado.

2

A manhã de sábado chegou de fininho. Dei um pulo da cadeira quando o despertador do celular gritou ao meu lado, exibindo nosso horário combinado na tela brilhante e vibrando contra a mesa sem parar. Peguei o aparelho, desativei o alarme e meus dedos fizeram o caminho conhecido para a lista da sexta-feira anterior, onde ainda constava um item em aberto. Aquilo era inaceitável.

Lancei um olhar furtivo para a tela do computador à minha frente onde meu texto me encarava, exatamente no mesmo ponto em que estava ontem quando recebi a última crítica devastadora que dizia para alterar praticamente tudo. Minha lista anterior estava incompleta. A sexta-feira à noite veio e se foi, e a lista continuou com uma linha cheia de palavras, sem um risco vermelho sobre elas. Sinceramente, estou surpresa por ter conseguido dormir nem que tenha sido um pouco.

Era hora de apelar para o plano B. Trapacear em um jogo de um jogador só. Recortei o texto do item em aberto da lista de sexta-feira, criei uma nova lista para o domingo seguinte, e colei o item na primeira linha. Depois, retornei à lista da sexta que agora apresentava todos os itens devidamente riscados de vermelho, como a natureza planejou. Sem hesitação, marquei com o indicador o botão acima que dizia CONCLUÍDO. Pronto, a lista automaticamente sumiu da tela e eu pude colocar o telefone de lado e fechar mais uma vez o notebook, dessa vez sem remorso.

— A bruxa velha fez de novo?

Foi assim que Carlinhos me recebeu, ao estender seus braços para me abraçar no portão de sua linda casa cinza com jardim florido. Virei-me, ainda segurando Carlinhos pelos braços, para encarar as traidoras paradas atrás de mim com sorrisos fixos nas caras, cheias de culpa.

— Não escuta essas duas dramáticas, está tudo ótimo. — Respondi me virando novamente para encará-lo. Ele não pareceu nada convencido, mas escolhi ignorá-lo. — E onde está a dona da festa?

Carlinhos abraçou Malu e Rapha, e depois caminhou conosco pelo corredor lateral do jardim, dando a volta na casa em direção à piscina na área dos fundos onde acontecia a festa.

O lugar, que eu já conhecia bem de visitas passadas, estava remodelado para o que deduzi ser uma recriação exata da parte do céu onde as crianças que foram cedo demais passam suas tardes brincando. Tudo era uma explosão de cor-de-rosa e branco, desde as mesas e cadeiras, até as guirlandas de balões enfeitando as colunas e boiando na piscina. Uma grande casa de bonecas estava montada no gramado, onde várias menininhas se enxiam de batom e glitter. Do lado oposto, havia um escorregador inflável altíssimo, onde dois rapazes em macacões amarelos tentavam sem sucesso controlar o fluxo de crianças subindo e descendo pelo brinquedo.

Avistamos Patrícia com Lili no colo a poucos metros da mesa do bolo, sorrindo e acenando.

— Vocês chegaram!

Ela nos abraçou, passando Lili de colo em colo enquanto a enchíamos de beijos e felicitações.

Estávamos na terceira taça de vinho em uma mesinha mais reclusa da festa, Rapha, Malu e eu, quando Carlinhos se aproximou, sentou-se na cadeira desocupada ao meu lado e deu um enorme gole em minha taça.

— Quantos anos tenho até Lili parar de correr em círculos com as mãos meladas de algodão doce e começar a se interessar por garotos?

— Até os 15. — Eu disse.

— 14 ou 15. — Disse Rapha.

— 12. — Disse Malu e todos nos viramos para encará-la.

Ela não pareceu se incomodar nem por um segundo, e deu de ombros enquanto dava um gole em sua taça.

— Me lembrem de cancelar passeios ao Shopping com a Tia Malu. — Carlinhos comentou pelo canto da boca e todos riram. — Então, como vai meu apê favorito?

— Esperando uma visita sua. Aliás, da família inteira. — Rapha respondeu.

— É verdade. Mas ando trabalhando tanto, é um milagre que eu consiga frequentar até a minha própria casa. — Carlinhos se virou para mim. — E falando em trabalho…

— Você também não, Carlinhos. — Revidei sem pensar. — Eu já cansei de explicar, não posso simplesmente…

Carlinhos me cortou sem dó.

— Eu sei, Alba Culpada da Silva, eu sei da ladainha toda. — e acenou com a mão para que eu parasse de falar. — Mas não era isso que eu ia dizer. O jornal assinou um contrato com uma editora nova que acabou de montar escritório na cidade. Eles são do norte. Vão fazer um livro com as melhores matérias do jornal para comemorar os trinta anos de circulação. É um grande projeto, só matérias minhas vão ser mais de dez.

— Uau, parabéns! — Exclamamos com carinho.

Carlinhos se formou alguns anos depois da gente, mas com dois diplomas: português e jornalismo. Espertinho ou o quê? Depois disso trabalhou em algumas revistas de pequena circulação até conseguir ser contratado pelo jornal de maior importância do estado. Está lá até hoje.

— Obrigado, obrigado. — ele acenou novamente com a mão e se virou para mim. — Eu pensei que talvez fosse bom para você, Alba, mostrar o seu livro para um par fresco de olhos. Quem sabe eles possam se interessar? Posso fazer o contato se quiser. O que acha?

Me mantive em silêncio enquanto processava a ideia. Se estava tudo tão certo e fazia tanto sentido, por que eu continuava a me sentir como uma traidora só de pensar em aceitar a proposta?

Procurei respostas nos olhos de Rapha e Malu, que aguardavam ansiosas pela minha reação. Eu sabia o que elas esperavam que eu dissesse, mas também sabia que na segunda-feira eu estaria novamente cara a cara com Dona Celi, fingindo não saber que uma editora concorrente estava recebendo o meu original naquele momento, e talvez discordassem totalmente do que ela tinha a dizer sobre ele. Ou talvez concordassem, o que era pior, porque isso seria a comprovação de que meu romance estava fadado a sufocar dentro da gaveta digital para sempre. Sinceramente, não sei do que eu tinha mais medo.

— Fala sério Alba, é só uma segunda opinião. — Rapha comentou, exasperada.

— Não é só isso. É… É… — Procurei as palavras, mas ela correram de mim.

— Alba. — Carlinhos me encarou fundo nos olhos e eu senti a seriedade do momento. — Repita comigo: É só uma segunda opinião.

Respirei fundo, ainda sem ter certeza do que queria fazer. Mas eu sabia que aqueles três não me deixariam sair dali até que eu concordasse, e eu aprendi há muito, que lutar batalhas perdidas era uma enorme perda de tempo.

Assenti com a cabeça e Carlinhos me imitou.

— Repita. É só…

— É só uma segunda opinião. — Repeti sem muita convicção.

Senti a onda de alívio emanar sobre a mesa como se um peso tivesse sido levantado de cima de nossas cabeças. Eles realmente queriam isso.

— Certo. — Carlinhos suspirou e depois virou o conteúdo da minha taça na boca, engolindo de uma vez e se levantando de um pulo. — Está na hora do superpai entrar em ação. Fiquem atentas para a hora de cantar parabéns, pois se perderem não vai ter mais. Só vou usar aquele maldito chapeuzinho uma vez.

Já passava das onze da noite de domingo e eu ainda não conseguia terminar a droga da lista. Rodeava o computador como um abutre sobre a carcaça de um bicho qualquer à beira da estrada, mas em questão de segundos encontrava alguma outra coisa qualquer para fazer. Tomei banho e me sentei diante dele. Nada me veio à mente, então me levantei, sequei o cabelo e retornei para a cadeira. Nada novamente. Fui escovar os dentes. Mais uma tentativa inútil. Organizei minhas roupas para o dia seguinte: camisa branca, saia azul marinho, sapatos nude, bolsa combinando. Uma última tentativa frustrada ao encarar a tela do computador por cinco minutos direto e… Já chega! Estava me sentindo ridícula.

Liguei a luz do corredor e caminhei descalça até o quarto ao lado, onde encontrei Rapha dormindo como uma pedra em sua cama de metal com um criado-mudo ao lado, onde uma pilha de papéis emaranhados pareciam ter sido jogados de lado em um último esforço antes do sono ganhar a batalha.

Deixei a porta aberta para iluminar um pouco o quarto e me sentei com cuidado ao lado dela, em um pedacinho de colchão ao lado de sua barriga.

— Rapha? — Sussurrei com cuidado, mas ela não se mexeu.

Me estiquei e alcancei os papéis ao lado, os quais comecei a empilhar com cuidado e os organizei de modo a formar uma coluna. Enquanto remexia nas folhas Rapha acordou, abriu um dos olhos e, ao ver que era eu, rolou de lado e colocou a cabeça de baixo do cobertor.

— Maluuu! — choramingou com a voz abafada.

— Ela ainda está no restaurante. — Respondi, cruzando as pernas para cima da cama, cutucando-a com um dos joelhos.

Ela deu um muxoxo de chateação e disse:

— Tenho aula amanhã cedo, Alba.

— Eu sei, me desculpe. Mas é que eu não consigo pensar em como alterar minha história. Nada me vem à cabeça. — Confessei baixinho, mesmo sabendo que não havia mais ninguém ali para nos escutar.

— Talvez seja porque não precisa alterar nada. Já está pronta. — Rapha respondeu com a mesma voz abafada.

— Não está. — respondi.

Ela deu um suspiro audível e, depois de um puxão, abaixou o cobertor até os cotovelos. Seus cabelos bagunçados escondiam seus olhos que me encaravam na penumbra.

— Se você me deixasse ler o livro, talvez eu pudesse ser de alguma ajuda… — começou a dizer baixinho, mas eu a cortei.

— Ninguém pode ler até que esteja pronto. Você sabe disso!

Ficamos em silêncio por alguns segundos, e o barulho dos carros na rua nos distraiu por alguns instantes. Enquanto enrolava os dedos de cabeça baixa, esperei que Rapha falasse novamente. E foi com doçura na voz que ela assentiu e completou:

— Ok. Amanhã o Carlinhos vai levar o original para a editora nova, certo?

Fiz que sim com a cabeça ao responder.

— Deixei o envelope com ele esta tarde.

— Então, não precisa alterar nada. Espere pela resposta. E se eles acharem que ainda não está bom, você tenta de novo.

Me pareceu justo, até porque eu não tinha ideia do que mais fazer para que a inspiração de como alterar a história me encontrasse. Cheguei até a sentir os ombros relaxarem ao concordar com Rapha, lhe dar um abraço de boa noite e voltar para cama.

Eram oito da manhã quando recebi uma mensagem de Carlinhos dizendo que o envelope já estava em posse da editora, e que era questão de tempo até que algum editor de lá lesse e entrasse em contato comigo. Eu sabia como esse negócio funcionava e por isso não me incomodei. Dependendo da temática do original, uma avaliação inicial podia levar meses, às vezes anos. Quem quer que fosse o escolhido para ler meu livro, com certeza estaria naquele momento colocando o envelope sobre uma pilha da minha altura de originais que, por sua vez, aguardavam uma oportunidade de surpreender o leitor. Se tem uma coisa que ser escritora te ensina é a ter paciência.

Depois do almoço no restaurante da esquina de sempre, passei a mão em um original que me esperava na mesa e mergulhei em suas páginas. A história era interessante e divertida, tinha bom humor, e me vi imersa naquele mundo novo que se revelava. Tão imersa que me surpreendi ao ouvir o telefone tocar. E fiquei mais surpresa ainda ao me dar conta da hora na tela do aparelho. Já eram quatro da tarde?

Uma voz feminina quase infantil me cumprimentou, e fez com que eu me endireitasse na cadeira quando perguntou, se eu teria disponibilidade de ir até o escritório da Editora Quatro-Folhas naquele exato momento para uma reunião com o editor que estava com o meu original, pelo jeito, muito interessado em me conhecer.

— Agora? Mas eu… Eu… — Gaguejei ao responder. Dona Celi vinha passando pelo corredor e, quando sua figura magra e loira alcançou a minha vista, algo dentro de mim se revirou e, de impulso, completei em voz baixa. — Estarei aí em meia hora.

Inventar uma desculpa boba foi o menor dos meus problemas. Eu raramente saio antes do horário, ou chego atrasada, ou tiro mais do que uma hora de almoço. Se tem uma coisa que não faço é fugir do trabalho. Por isso, foi simples convencer Dona Celi de que um amigo tinha ficado sem carro e precisava de uma carona até o aeroporto para uma viagem de negócios. Bem, o avião não vai esperar por ele, então eu não tinha, em teoria, nem ao menos tempo para explicar os detalhes da situação, o que funcionou muito bem para mim, já que o tempo todo que eu estava explicando os por menores da mentira, minha garganta secou e minhas mãos não conseguiam parar de se mexer.

Não sabia explicar exatamente por que, mas o fato de estar escondendo isso da minha chefe e mentora fazia a coisa toda parecer ainda mais errada desde o início, como se tudo fosse explodir na minha cara como castigo por ter sequer pensado em trair a confiança dela. Como dizem, carma é uma droga.

Mas o nervosismo, por mais incômodo que fosse, não me impediu de dirigir os poucos quilômetros até o prédio onde o escritório da nova editora funcionava. Bem na frente das portas de vidro fumê, o letreiro grande dizia “Editora Quatro-Folhas”. E um trevo de (adivinhe!) quatro folhas desenhado em verde ao lado servia de logotipo. Passei pelas portas e me dirigi ao balcão de mármore bem à frente, onde uma mocinha muito magra e pálida falava ao telefone enquanto digitava fervorosamente no teclado à sua frente. Ela sorriu para mim enquanto se despedia da pessoa com quem falava, e me cumprimentou com a mesma voz infantil do telefone.

— Boa tarde. Posso ajudá-la?

— Acho que nos falamos há alguns minutos. Eu sou Alba…

— Ah, sim, o Doutor Padú está lhe aguardando. Só um momento, por favor.

Ela disse doutor? Vim parar em um consultório médico por engano? E que tipo de nome estranho era aquele? O cara devia ser estrangeiro ou sei lá. E, pelo jeito, ele lê na velocidade da luz também. Mal colocou as mãos no envelope e já tem uma opinião. Talvez ele deva algum favor ao Carlinhos ou coisa parecida, para ter me dado prioridade com tanto gosto. Eu sei que deveria estar empolgada, mas sinceramente estava preocupada em receber a pior crítica possível e cair no choro ali mesmo. Não estava confiante em minha capacidade de suportar rejeição dobrada. Aliás, não estava confiante e ponto.

A recepcionista apertou um botão no aparelho de telefone enorme em sua mesa e falou baixinho ao fone.

— Ela está aqui.

Depois de um segundo ouvindo, confirmou com um “um-hum” e desligou.

— Ele já está a caminho.

Confirmei com um aceno de cabeça e me virei para o lado direito da recepção, onde uma porta de madeira grande e de aparência cara estava fechada. Do outro lado, um pequeno sofá de couro preto me encarava convidativamente. Logo acima dele havia um quadro grande e colorido, como se o pintor tivesse arremessado as tintas sobre a tela sem nenhuma intensão e as cores tivessem respingado de qualquer jeito, formando uma bela confusão de formas. Fiquei encarando a tela por alguns instantes, admirando a anarquia total, desejando poder entrar na obra e me tornar uma das cores, nadando entre as ondas vibrantes.

— Esse é um dos meus favoritos.

Dei um pulo. Ele estava parado bem ao meu lado, olhando para a tela assim como eu. Me virei de uma vez para encará-lo, totalmente despreparada para a surpresa. Tinha os cabelos claros e lisos penteados para trás, os olhos cor de caramelo esverdeado, como se Deus tivesse ficado na dúvida quanto ao tom que usaria. Era mais alto que eu alguns centímetros, mesmo com meu salto-alto me dando vantagem. Vestia uma roupa social, apesar das mangas da camisa branca estarem dobradas até os cotovelos, e da gravata estar frouxa no pescoço. Suas mãos estavam enfiadas nos bolsos e ele tinha um sorriso amigável.

— Desculpe, assustei você.

Sorri sem graça, ajeitando a bolsa de volta no ombro.

— Não, imagina. Eu ando meio tensa ultimamente. Tudo me assusta.

Uau, isso soou errado. Tudo me assusta? Parece até que fugi do hospício. Tudo bem, vamos remediar a situação. Sorriso no rosto.

O sorriso dele se apagou levemente, mas sua expressão amigável continuou a mesma. Ele disse:

— Não devia estar olhando para esse quadro então. Ele sempre me inspira energia, tensão.

— Sério? A mim inspira inveja. — Respondi no ato.

Agora definitivamente a expressão dele mudou. Como assim, do que eu estava falando? Meu Deus, o que estava acontecendo? Não acreditei que essas coisas estavam saindo da minha boca.

Ele pareceu se desconsertar por um momento, mas preferiu ignorar o que eu havia dito, e o agradeci imensamente em pensamentos por isso.

— Vamos para a minha sala? Por aqui, por favor.

Ele se virou e começou a caminhar até a porta grande de madeira, que ainda estava aberta após ele ter passado. Para uma porta tão grande e de aparência tão pesada, ela até que era muito silenciosa.

Caminhamos por um longo corredor, passamos por algumas bainhas de cubículos bem divididos, alguns vazios, outros ocupados por jovens trabalhando, depois por algumas portas de salas mais espaçosas e finalmente chegamos ao nosso destino. Uma das últimas, ao final do corredor que não chegamos a atravessar totalmente, apenas por uma última porta dupla de madeira que ficava de frente para o longo corredor. Devia ser a sala do editor-chefe.

Entramos na sala que, diga-se de passagem, era bem maior que a minha, e ele fechou a porta ao entrar. Passou por mim e deu a volta na mesa de vidro, se sentando de costas para a janela onde as persianas abertas deixavam à vista um jardim interno cheio de plantas altas. Ele acenou para que eu me sentasse na cadeira à sua frente, e obedeci imediatamente.

Enquanto ele clicava aqui e ali na tela de seu computador, eu aproveitei para observar (Ok, bisbilhotar!) discretamente à minha volta. Havia dois quadros na parede à minha esquerda, parecidos com o da recepção, uma estante cheia de livros e peças de arte exóticas, como um grande chifre branco e um mini busto em madeira de um rosto desconhecido, além de vários potes, canecas e pratinhos que pareciam ser feitos de barro, pintados desigualmente com cores gritantes e desenhos tribais.

Em cima da mesa de vidro, além do computador prateado ultra moderno, havia mais balangandãs exóticos e três pilhas de envelopes pardos, sobre uma das quais estava meu livro aberto na primeira página, mostrando a folha de rosto com minhas informações pessoais e uma sinopse da história.

Eu já ia me preparando para abrir a boca quando a voz dele ressoou firme pela sala.

— Me desculpe, acho que não me apresentei. — Ele parou de manusear o mouse e cruzou os braços olhando para mim. — Me chamo Paulo Eduardo, mas todos me chamam de Padú.

— Doutor Padú, certo? — Perguntei.

— Formalidades bobas. — Ele respondeu em tom de bate-papo. — Eu não salvo vidas nem nada do tipo, só frequentei a faculdade tempo demais.

Quando levantei as sobrancelhas em questionamento, ele deu um sorrisinho de lado e completou.

— Bacharel em Letras, pós-graduação em Literatura e Crítica Literária, mestrado em Ciências da Linguagem e doutorado em Estudos Literários.

— Uau! — Foi só o que consegui dizer.

Ele continuou sorrindo, como se não estivesse levando a conversa nada a sério. Me atrevi a começar a falar.

— Bom, me chamo Al…

Ele me cortou no ato, se virou para a tela do computador e recitou:

— Alba Tereza Bernal, vinte e sete anos, bacharel em Língua Portuguesa pela Universidade Federal mais respeitada do país, revisora há quase cinco anos na Editora Folhetim, autora do livro… — Ele se virou para a pilha de envelopes pardos do lado oposto da mesa e alcançou o meu original, virando a capa de volta para frente do encadernado. — …“Mil e uma maneiras de amar”. — Ele deixou o original cair em cima da mesa de uma vez, e cruzou novamente os braços ao voltar os olhos para mim. — Nada mal.

O choque de ter a minha biografia profissional recitada tão abruptamente não me impediu de encará-lo por um momento, até que esbocei um sorriso nervoso e comentei com a voz trêmula:

— Não sou doutora nem nada, mas…

Ele sorriu de volta e meu coração parou. Ele não estava sendo arrogante, só não podia evitar.

Inclinou-se para frente como se estivesse estudando o meu rosto e comentou:

— Você sabe o que estou pensando agora, não é? O que qualquer um em meu lugar pensaria, na verdade. — Ele fez uma pausa para efeito, e continuou. — Por que uma pessoa que trabalha em uma das editoras mais conceituadas do país, preferiria ter seu livro de estreia publicado por outra?

Engoli seco. A escolha de palavras dele fez toda a diferença na pergunta. “Preferiria”. Não se tratava de forma alguma de escolha, ou preferência. Eu estava dando um tiro no escuro, uma chance para o universo me surpreender. Me lembrei das palavras de Carlinhos que, mais do que nunca, fizeram todo sentido para mim.

— É só uma segunda opinião. — Respondi tão baixo que fiquei surpresa dele não ter me pedido para repetir.

Encarei minhas mãos no meu colo, enrolando os dedos como de costume. Não sabia direito o porquê, mas sentia a mesma sensação de quando inventei uma desculpa mais cedo para poder vir até aqui. O nervoso da mentira me incomodava bem no fundo do estômago, como a fome da manhã.

— Então quer dizer que se eu te oferecesse um contrato, você não aceitaria? Afinal, se é só uma segunda opinião que você procura, deve ter recebido uma ótima proposta para publicar sua história pela Folhetim.

Minha garganta travou ao levantar meu olhar vagarosamente para encará-lo mais uma vez. Pude sentir seu olhar curioso e cheio de energia me perfurar como se pudesse ler meus pensamentos e sentir meu nervosismo.

— Ok, talvez não seja só pela segunda opinião. — Confessei.

— Então você aceitaria um contrato? — perguntou astutamente.

— Está me oferecendo um? — Questionei esperançosa.

— Claro que não. O livro é uma droga. Mas o que eu quero saber é, o que a Celi disse a você de tão ruim que a fez desistir da Folhetim e vir tentar a sorte aqui.

E simplesmente assim um balde de água fria me atingiu, fazendo minhas entranhas revirarem. Dei um pulo da cadeira, segurando minha bolsa pela alça com a mão tremula. O nervosismo desta vez se misturou com raiva e a sensação de ter sido ofendida.

— O quê? Quem você pensa que… Espera. Você conhece a Dona Celi? — Antes de deixar minha raiva tomar as rédeas da conversa, a curiosidade pulou na frente e não resisti.

— Deixa eu adivinhar.

Ele se levantou também e começou a caminhar vagarosamente, dando a volta na mesa e ficando de frente comigo. Ele continuou.

— Ela leu, encontrou uma quantidade absurda de erros, sentou com você e te fez reconhecê-los. E depois pediu que fizesse milhares de alterações.

Fiquei calada. Eu não sabia o que dizer, porque ele estava certo. Tinha sido assim desde a primeira vez que ela leu meu original, exatamente como ele havia descrito. E ainda era assim que ela reagia, até hoje. Senti uma pontinha de tristeza ao responder.

— Ela disse que minha história precisa de mais… Vida.

Ele deu um passo para mais perto de mim e esperou que eu o encarasse antes de dizer:

— Bom, tem um motivo para ela ser uma das melhores do país. Ela está certa.

Pisquei sem querer, eu não queria quebrar o contato visual. O olhar dele era muito gentil e me senti um tanto derrotada naquele momento, mas ele continuou me encarando.

— Me desculpe, mas se você quiser ser uma escritora de verdade, tem que fazer algumas mudanças. Você escreve muito bem, com certeza tem o talento. Mas sua história precisa ser mais real, mais interessante, mais…

— Viva. — Completei.

— Isso. ­— Ele respondeu. — Olha, se eu puder te dar só um conselho…

Ele esperou que eu lhe desse o OK e eu fiz que sim com a cabeça.

— Eu diria: Comece uma outra história. Do zero. Novinha em folha.

Me desconsertei.

— Uma nova história? Mas, se não fui capaz de fazer esta funcionar, por que seria diferente com outra?

Olhei de lado para o encadernado ainda jogado em cima da mesa, me sentindo de repente muito distante dele. Então senti duas mãos firmes me segurando pelos ombros, como se tentassem me impedir de duvidar e me lançar de volta à lealdade que eu tinha para com a arte de escrever.

— Você consegue.

O dono das mãos me disse com a mesma firmeza com que me segurava, e senti uma segurança inexplicável naquele momento, como se ele estivesse transferindo sua autoconfiança para mim através do toque. Dei um sorriso fraco e respondi.

— Obrigada.

Ele sorriu de volta e me soltou, e se virou para dar alguns passos até a porta da sala.

Tratei de jogar a alça da bolsa nos ombros e caminhar até ele, olhando para o chão em um repentino ataque de vergonha. Ao passar pela porta me virei, estendendo a mão para cumprimentá-lo ao sair. Ele me apertou a mão de volta com suavidade e nos encaramos mais uma vez.

— Só mais uma coisa. Eu não entendi por que você leu o meu livro com tanta rapidez. Quero dizer, eu não esperava uma resposta tão cedo. — Questionei.

Ele sorriu ao responder.

— Hoje foi o meu primeiro dia aqui e seu livro era o primeiro da pilha.

— Mas, se você não gostou, por que simplesmente não me mandou um e-mail recusando? Afinal, é o que normalmente fazemos. É o que eu faria.

Soltando minha mão, ele respondeu:

— Fiquei curioso para conhecer a mais nova vítima da minha mãe.

3

A semana voou tão rápido que não me surpreenderia se minha cabeça estivesse girando no pescoço e parecendo um borrão para as outras pessoas. Minha carga de trabalho estava enorme. Quanto mais eu lia e revisava, mais material aparecia para revisar. Editar em si, eu estava fazendo muito pouco. Como não sou oficialmente editora (formalidades bobas), somente os originais amadores caiam em minhas mãos. E como a Editora tinha uma quantidade respeitável de autores conceituados, a maioria do trabalho se tratava de livros aguardados pelo público, futuros best-sellers. Esses ficavam por conta da chefe e seus poucos protegidos. O resto de nós revisava, “re-revisava” e “re-re-revisava” quantas vezes eles achassem necessário. E quanto mais importante o autor era, mais necessário ficava.

Já passava do final do expediente e eu ainda estava sob a luz da minha potente luminária, corrigindo erros de um longo capítulo sobre animais marinhos, pesquisando termos técnicos e dando goles na lata de energético já quente. Eu sabia que Dona Celi e eu éramos as únicas pessoas que ainda estavam no escritório, porque podia ouvir o som de sua voz ao longe conversando com alguém ao telefone. A luz do dia já estava quase totalmente extinguida e o vento frio do início da noite resfriava meus pés descalços sob a mesa, soprando pela janela aberta. Ao virar mais uma página do tedioso guia marinho, o barulho de uma porta abrindo e fechando me fez levantar o olhar para o corredor deserto em frente à porta aberta da minha sala. Os sapatos baixos de Dona Celi ecoaram pelo corredor e eu remexi nos cabelos e blusa, tentando assentar minha aparência o máximo possível.

Ela apareceu à minha porta em poucos segundos, com o celular à mão e uma aparência um pouco tensa.

— Alba, por que você não deixa isso para segunda-feira? Já é quase noite, você deve ter algum lugar para ir.

É impressão minha ou ela acabou de muito educadamente me expulsar do prédio? Quantas incontáveis sextas-feiras à noite ela passou pela minha porta, me jogando acenos apressados de boa noite sem nem ao menos se importar com o que eu estava fazendo?

Não só ela me deu o pé, como ficou parada ali me olhando, me empurrando com o olhar a colocar de volta os sapatos e casaco e tomar o rumo da rua.

Me sentindo levemente incomodada, fiz o que ela esperava. Arrumada e com a bolsa em mãos, desliguei minha luminária e passei a mão no guia marinho para continuar o trabalho em casa. Sem esquecer, é claro, da folha branca com uma lista de nomes científicos que eu não conseguia decidir se estavam escritos de forma errada, ou se haviam múltiplas grafias para o termo.

Dei alguns passos em direção à porta e Dona Celi se virou, digitando alguma coisa em seu celular e parando no meio do corredor, como se esperasse que eu passasse por ela e fosse embora. Mas, antes disso, resolvi aproveitar o momento para dizer a ela algo que havia ensaiado na minha cabeça umas mil vezes ao longo da semana.

Limpei a garganta com força, o que fez com que ela levantasse seu olhar para mim. Sem se abalar, ela simplesmente deu um passo para trás, abrindo mais espaço no corredor para que eu passasse.

Ignorei o ato e lhe falei.

— Dona Celi, eu vinha querendo lhe dizer uma coisa. Que não se incomode em voltar a corrigir meu livro, caso estivesse pensando em fazer isso. Não precisa mais.

Ela levantou seu olhar do celular mais uma vez, mas muito distraidamente.

— Você já tem uma nova versão para me mostrar? — Ela perguntou.

— Na verdade não. Eu desisti do projeto. Vou começar algo novo.

Minha voz saiu fininha como se eu estivesse com medo de sua reação. Mas ela simplesmente me encarou seriamente, piscou algumas vezes e comentou com a voz mais tranquila do mundo.

— Verdade?

Confirmei com um aceno de cabeça e um sorriso fraco, e ela estreitou os olhos em resposta. Depois seus lábios se enviesaram em um sorriso e me preparei para o pior, mas em vez de dizer alguma coisa, ela simplesmente abaixou o olhar para o celular e recomeçou a digitar com dedos ágeis. Sentindo os nervos estremecerem, reuni minha coragem e perguntei baixinho.

— A senhora não acha que seja uma boa ideia?

Dessa vez ela não levantou o olhar, só balançou a cabeça enquanto mantinha o sorriso enviesado e começou a dizer:

— Boa ideia? Eu acho que isso é uma péss…

Um barulho de porta se abrindo a impediu de continuar. Ela se virou e, me dando as costas, nós duas assistimos Padú atravessar a porta de vidro e dar alguns passos barulhentos pelo corredor escuro do escritório, encontrando primeiro o meu olhar e depois o dela enquanto caminhava.

— Fazendo hora extra? — Ele perguntou.

Por um milésimo de segundo, meu cérebro lutou contra a vontade de ao mesmo tempo responder com um sorriso e perguntar o que ele estava fazendo ali. Mas, no segundo seguinte, minha memória sofreu um surto de alta produção e meu sorriso recuou, enquanto eu revivia em pensamentos os últimos momentos de nossa última e única conversa, na qual ele me contou sobre sua mãe. Logo percebi, confesso que um tantinho desapontada, que ele de maneira nenhuma estava ali para falar comigo. Aliás, já passava do fim do expediente e ele provavelmente nem esperava que eu estivesse lá. Eu sei, foram os segundos mais mentalmente produtivos do mundo.

Aguardei, observando Dona Celi, esperando que respondesse a pergunta como se estivesse surpresa em vê-lo. Mas ela não estava.

— Hum… Olá.

Ao ouvir a familiaridade em meu cumprimento, Dona Celi imediatamente se virou de lado para me olhar e, mesmo sem que dissesse nada, seus olhos me contaram tudo. Ela não estava apenas surpresa com o fato de eu e seu filho nos conhecermos, mas também não estava nem um pouco feliz com isso.

Padú nos alcançou e ficamos os três parados no corredor meio escuro, já que a única luz acesa era a da sala da própria Dona Celi que ficava a alguns metros à frente, e de uma luminária em uma mesa ao lado da porta de vidro por onde Padú tinha acabado de passar.

Ele me deu uma última olhada de esguelha antes de se virar para a mãe e comentar em tom amigável.

— Podemos conversar agora ou está ocupada corrigindo mais alguém?

Dona Celi pareceu voltar à vida quando se virou para mim, com um sorriso grande no rosto e com a voz afável.

— Chega de trabalho por hoje. Até segunda-feira, Alba.

— Hum… até segunda, Dona Celi. — Respondi ao iniciar minha caminhada para fora do escritório.

Dei uma última olhada em Padú ao passar por ele e nossos olhares se encontraram mais uma vez, por um breve segundo no qual meu estômago deu uma revirada nervosa e inesperada. O difícil foi decidir se o motivo era a possibilidade da minha pequena aventura na Editora Quatro-Folhas surgir durante a conversa que eles teriam, ou o fato de, mesmo à meia luz, o verde mel de seus olhos terem saltado ao meu encontro e lido meus pensamentos naquele segundo.

— E ele é alto ou baixo? — Malu perguntou ao se juntar a mim e a Rapha para comer bobó de camarão da quentinha que ela tinha trazido do restaurante no dia anterior.

Estávamos mais uma vez tentando arrancar todo e qualquer significado, fosse ele óbvio ou decodificado pelo FBI, contido nas palavras que Padú havia me dito durante nossa conversa em sua sala na segunda-feira, e também naqueles parcos minutos que dividimos com Dona Celi no escritório há algumas horas.

— Mais alto que eu. Mas o que eu estou tentando dizer é: o que vai acontecer com meu emprego quando ele contar para a mamãe querida sobre minha tentativa de deserção? — Dramatizei ao colocar um camarão na boca.

— Mas ele é alto tipo alto demais, ou… — Malu começou, mas Rapha a interrompeu.

— Você acha que ele vai contar para ela? Seria muita sacanagem.

— Seria profissional da parte dele, e até justo se ele quiser abrir os olhos da mãe para o tipo de gente ingrata que trabalha para ela. — Me virei para Malu. — E é alto, tipo, altura perfeita. Ái, droga!

Me joguei para trás na almofada na qual estava sentada no chão da sala. Rapha, que estava com as pernas cruzadas como um índio no sofá, me observou com um sorrisinho astuto no rosto.

— Você está tão a fim desse cara. É até covardia!

Malu deu risadinhas em resposta e eu afundei minhas mãos no rosto, tentando cobrir a absoluta vergonha diante da situação. Meu emprego, minha carreira, e provavelmente minha dignidade estavam em jogo, e só o que eu conseguia ver quando fechava os olhos eram aqueles olhos verdes. O que tinha de errado comigo?

A verdade é que a primeira impressão que tive dele estava certa. Ele levava o trabalho a sério. Do contrário, por que simplesmente apareceria no escritório depois de anos sem ninguém nem saber que Dona Celi tinha um filho, quanto mais um que trabalhava no mesmo ramo, e na calada da noite teria uma sessão de reaproximação com ela? Não fazia sentido. Nada entre eles havia mudado naquela semana, pelo menos nada tinha acontecido fora da rotina diária da Dona Celi. Ela continuava chegando no mesmo horário, tomando o mesmo café, atendendo sua agenda de autores, dando as mesmas ordens/broncas de sempre nas pessoas de sempre. O que havia mudado? Eu! Fui me meter onde não devia. Fui dar uma de esperta à procura de segundas opiniões. Fui fingir que não aceitaria de todo coração qualquer elogio e/ou oferta que a editora dele fizesse para o meu livro. Fui atrapalhar o equilíbrio editorial. E pelo quê? A única coisa que ganhei foi mais um grande e redondo NÃO bem desenhado na minha cara.

Depois que descrevi com detalhes os acontecidos da minha tarde de segunda-feira, Malu e Rapha decidiram rever os fatos com uma atitude um pouco mais positiva.

— Bem, ao menos ele te deu uma boa ideia. Começar um projeto novo.

— É. Você tem mais experiência agora, vai ser bem mais fácil.

Mais fácil? Se ao menos eu tivesse alguma coisa sobre a qual escrever, talvez eu percebesse alguma mudança na qualidade da escrita. Mas para isso é necessário, sabe, escrever. Desde que me sentei pela primeira vez em frente à tela em branco no início da semana, nem uma mísera ideia me veio à mente. Nada. Parece que meu poço secou. Evaporou. Não tenho a mínima ideia do que eu quero contar, de que assunto me faria escrever com a tal maturidade que adquiri ao longo de quatro anos reescrevendo capítulos inteiros do meu primeiro original.

Se realmente melhorei como escritora, agora eu precisava achar a história que mostraria para o mundo essa melhora. Mas, onde?

— E o cheiro? Ele usava perfume? — Malu perguntou curiosa. Ela ainda estava vestida com as roupas que havia usado no trabalho, por isso os cabelos negros e lisos estavam presos no alto da cabeça, e seu vestido preto tinha uma manchinha branca perto do joelho.

— Perfeito, perfeito, tudo perfeito! Vocês não entenderam? — Me levantei de uma vez e minha taça de vinho tinto quase vazia virou ao meu lado. — Esse cara vai ferrar com a minha vida, vai fazer Dona Celi me colocar no olho da rua, e tudo o que eu quero fazer é me jogar em cima dele e arrancar sua camisa com os dentes.

Malu e Rapha deram risadas descaradas, ignorando totalmente meu desespero. Continuei:

— Quer saber? Isso é culpa de vocês. De vocês e do Carlinhos. Que ideia me fazer ir atrás de uma “segunda opinião”. — Fiz aspas com os dedos.

— Alba, se fosse depender da velha Celi você estaria até agora reescrevendo aquela história, aceitando tudo o que ela dizia como se fosse lei. — Malu retrucou.

— É, nós te fizemos um favor. Você só não quer admitir, porque é insegura, não tem fé em si mesma. — Falou Rapha, a sabedoria em pessoa.

— Mas não tem problema, porque nós temos. — Malu se levantou do sofá e me agarrou pela cintura em um abraço apertado. — Você vai escrever um livro ótimo, eu tenho certeza.

Rapha se levantou e se juntou a Malu no exercício “esmaga Alba”.

— E se a velha te colocar na rua não importa, porque as editoras da cidade vão se matar para te contratar.

Tentei manter a atitude de revolta, mas a verdade é que eu sei que tudo o que fazemos e dizemos umas às outras é pelo melhor de todas, e elas jamais me encorajariam a fazer o que eu fiz se não genuinamente achassem que era o certo para mim. Aliás, isso também inclui Carlinhos.

Retribuí o abraço e joguei o peso para trás de forma que tombamos como um grande emaranhado de pernas, braços e cabelos para cima do sofá, rindo e cheirando a vinho tinto. Eu sei que elas estavam certas, e que para as pessoas boas as coisas tendem a acabar dando certo no final, mas isso não me impedia de estar absolutamente petrificada de tanto medo.


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