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SMAI será relançado em breve, enquanto isso leia os primeiros capítulos desse romance grátis, agora mesmo! Boa leitura!

S.M.A.I.

Super Melhores Amigos de Infância

Ana Luiza Medeiros

Apresentação

Aos 22 anos, uma recém-formada brasiliense encontrava-se de uma hora para a outra, com muito tempo nas mãos. Muito mais do que ela jamais teve antes, e mais do que seria aconselhável.

Após um papo interessante com amiga, sobre os textos que ela já postava em seu (agora extinto) blog, uma sugestão lhe saltou os ouvidos. Desenvolver os textos em algo maior, com mais dimensão.

Desafio aceito e, devo dizer, recebido de muito bom grado.

Naquele ano escrevi o que seria meu primeiro romance, um aglomerado de ideias e arquétipos baseados em observação, imaginação e muito tempo livre.

Minha voz como autora ainda estava em formação, mas o resultado foi um ótimo passo inicial.

Lhe entrego agora o que foi o meu primeiro gostinho do delicioso vício que é criar histórias, e espero de coração que se divirta com a leitura.

Com amor, Ana Luiza.

Ps; Não deixe de conhecer meus romances seguintes, também disponíveis na Amazon, (Lena Tamanho G e Minha Lista de Coisas Para Viver) onde você notará a evolução da minha escrita, e espero, se apaixonará por novos personagens tão queridos quanto.

Todo o conteúdo deste livro é ficcional e qualquer semelhança com pessoas ou situações da vida real é mera coincidência.

Capítulo 1

Hoje é o meu aniversário. Eu sei o que você está pensando: Uau! Parabéns, muitos anos de vida, que dia é a festa?

Na verdade, eu estou na minha super festa, que a minha melhor amiga Kamila organizou para mim. É a festa mais deprimente, da história das festas de aniversário deprimentes do mundo.

O cachorro da minha amiga morreu hoje. Dá para acreditar? Hoje! De todos os dias do ano, ele escolheu hoje, para partir dessa para melhor. Por que ele não escolheu uma data mais apropriada como, o enterro da avó dela, ou o dia em que ela bateu o carro, ou sei lá, quarta-feira passada quando arranquei dois sisos e fiquei com a boca do tamanho de um mamão?

Todas seriam datas mais indicadas, por que pelo menos não arruinaria a minha festa, e eu não estaria agora recebendo um monte de convidados confusos com a falta de música, e o fato da minha amiga estar aos prantos e consolando a irmãzinha dela que, aliás, voou do Rio especialmente para a festa. (Bom, ela veio para o enterro do cachorro, que ela deixou aos cuidados de Kamila há alguns anos, mas isso é um detalhe insignificante, não é mesmo?)

Quero dizer, quem esse cachorro pensa que é para fazer uma partida tão dramática? O chihuahua da Paris Hilton, ou o cão d’água português dos Obama?

A reação de todos é a mesma. Basicamente, eu recebo a pessoa que procede em me dar um abraço e um enorme sorriso, e logo depois o sorriso desaba, vira uma cara super triste, e a pessoa corre para ir dar os pêsames à Kamila e sua irmã.                                                                                                                                                                                                                                                     É impressionante, até no dia que é para ser sobre mim, um empurrãozinho de São Francisco acaba trazendo a luz dos holofotes direto de volta para sua querida estrela, que já se acostumou com a atenção e age como uma lady na hora das condolências.

Não que eu esperasse que desse tudo certo porque, quando se é amiga dela tempo suficiente, você se acostuma a um pouco de drama em qualquer situação que seja.

Eu já me preparava para o incrível desenrolar da trama antes mesmo de começar a me vestir algumas horas atrás, mais confesso que não imaginei que seria assim, num nível dramático tão alto. Acho que eu devia até estar me sentindo honrada com o nível de drama na minha festa de aniversário.

Ano passado, no meu café da manhã de comemoração, o namorado da Kamila não apareceu e ela ficou discutindo com ele ao telefone durante todo o tempo, e mais tarde, quando já tinham terminado e voltado pelo menos umas quatro vezes, ele apareceu e deu a ela um maravilhoso colar de ouro com flores de prata, e se desculpou de joelhos, na frente de todas as meninas que nos acompanhavam para o café. Esse ano, quem diria, uma morte na família! Que honra a minha. Sério, porque Gucci, o falecido, era tratado melhor do que muitos outros membros não quadrúpedes da família dela.

Enfim, dos males o menor, já que todo mundo que foi convidado apareceu e pelo menos trouxeram presentes glamorosos em pacotes da Ellus, Cavalera e Contém 1g. Não que eu esteja no clima para abrir presentes, já que esse é um momento difícil para Kamila, e de acordo com o código das melhores amigas, para mim também, automaticamente.

Também não é de se esperar que nada mais de interessante aconteça na festa, além da anfitriã agradecer chorosa a presença de todos, e desculpar-se por seu luto de última hora, apesar de todo mundo entrar no clima com ela assim que recebe a má notícia.

Ninguém em seu juízo perfeito ousaria ir contra o humor da Kamila. Pelo menos ninguém que liga para a sua posição na alta sociedade incrivelmente seleta de Brasília.

Todo mundo já está mais do que acostumado a “entrar na dança”, por assim dizer, quando se trata de conviver com ela em troca de alguns convites para inaugurações, shows e eventos chiquérrimos recorrentes na rotina da cidade, além de fotos nas colunas sociais, acompanhada dos DJs mais badalados e artistas globais contratados. Além disso, não importa o quanto possa parecer desalmado, todo mundo sabe que luto é super fashion, e vestir um pretinho básico num coquetel em homenagem a um ente querido que partiu, é só mais uma desculpa para se socializar e se vestir bem.

Lá para as tantas, quando a comida começou a esfriar e a bebida a esquentar, a maioria dos convidados acabou tomando o rumo de casa, e eu fiquei para trás com uns gatos pingados para não deixar a Ka sozinha.

-Amiga, sinto muito de novo pelo Gucci, mas preciso ir.

-Mais, você vai me abandonar no meio de uma crise familiar?

A Kamila tem um dom muito específico de dramatizar tudo bem mais do que qualquer outra rainha do drama conseguiria.

-Olha, amanhã eu acordo muito cedo e além disso, crises familiares, existenciais e de meia idade são reservadas para a época de Natal e aniversários, lembra? E já que o aniversário é meu, e eu não estou sentindo nenhuma crise se aproximando do meu sistema nervoso num futuro imediato, eu estou de saída. _Respondi me posicionando para a retirada.

-E como é que eu fico? Amigas de luto não ficam à frente do trabalho na escala de atenção concedida?

-Amigas de luto sim. Amigas que perderam o terceiro pinscher em quatro anos e amanhã provavelmente vão comprar outro, não. Beijos.

Eu até que gosto de trabalhar no sábado. O escritório fica tranqüilo, o ar condicionado fica desligado e o telefone raramente toca.

Minha sala fica no meio do corredor, o que quer dizer que todo mundo que vai fazer qualquer coisa, tem que ficar passando na minha porta e me distraindo o tempo todo. A máquina de café fica numa das extremidades, e a máquina de cópias do outro. É quase uma pista de corrida, e nos dias mais tumultuados é praticamente a São Silvestre em pleno corredor. Exceto aos sábados pela manhã. Tranqüilo e calmo sábado de manhã.

Eu trabalho na Secretaria de Resolução de Conflitos Internacionais da ONU Brasília, e sou internacionalista por formação, aliás, a Kamila também, apesar dela nunca ter exercido a profissão, ou qualquer profissão, na verdade. Ela não precisa, vindo de uma das famílias mais tradicionais da cidade, é herdeira de um enorme império de Spas de luxo, e a última coisa com que precisa se preocupar na vida é com ganhar dinheiro, e ela faz exatamente isso. Não se preocupa.

Eu também não posso dizer que honestamente trabalho para viver, porque minha família também faz parte de um império, só que de hotéis. Por isso, minha carreira é mais uma evolução natural do que uma árdua luta pelo pão de cada dia.

Eu sempre me interessei pelo que acontecia com o mundo de uma forma geral. Brasília nunca foi suficientemente interessante para mim, e depois de me formar em Relações Internacionais, esse emprego foi o próximo objetivo profissional a ser alcançado. E depois de alguns estágios e trabalho voluntário, eu consegui. E cá estou, no alto dos meus recém-completos 25 anos, no meu emprego legal, morando sozinha num apartamento legal no centro da cidade, e coisa e tal.

A minha amiga Ka, bom, depois da nossa formatura ela resolveu tirar um tempo off da nossa árdua rotina de estudantes e baladeiras, e foi ser baladeira em tempo integral em Cannes, Cancun e Saint Tropez por um ano. Depois disso, quando voltou à cidade com uma nova cor de cabelo, um bronzeado dourado incrível e calçando Manolos da próxima estação, as socialites que tomaram conta da vida da alta sociedade durante sua ausência caíram matando na puxação de saco, o que transformou Kamila na socialite mais in a ser copiada e seguida desde então.

Por isso sua rotina de “trabalho” inclui organizar festas, aparecer nos eventos chave, e basicamente ser vista e servir de inspiração para todas as outras aspirantes à princesa brasiliense.

Nós duas chegamos a estagiar por um tempo na Europa, mas as butiques e baladas eram demais para resistir, e acabamos ficando por conta disso por uns dois meses até eu perceber que apesar de amar muito minha amiga querida, não poderia levar meu futuro a sério se estivesse sempre perto dela sendo arrastada para os mais variados programas que você poderia imaginar. Me pego algumas vezes pensando em como cheguei a me convencer por vezes das coisas mais absurdas, para me livrar da culpa de estar matando um compromisso importante, em nome do estilo de vida glamoroso e inconsistente que a Kamila leva.

-Ana, se eu não ficar com Pierre hoje eu juro que morro! Vamos, por favor?

-Kamila, eu entendo que ele é definitivamente o verdadeiro amor da sua vida pelo menos pelos próximos cinco dias, mas pular de PARAQUEDAS! Aí já é demais!

E esse não foi o único episódio, mais se eu fosse contar todas as vezes em que olhei para ela com cara de quem foi vencida pelo cansaço e disse “Tá bom, mais você me deve essa!”, não caberia em um blog, é sério. A Kamila é assim, do tipo de pessoa que se acostumou a fazer o que dá na telha, e de quebra arrasta inocentes como eu para suas furadas. Durante os primeiros três anos de faculdade era rotina alguém me ver sendo arrastada de casa com o sapato na mão e com ela na frente gritando “Vem que no caminho eu explico!”.

Lá para as duas da tarde meu celular tocou, e eu estava tão concentrada na tela do computador e no artigo que eu digitava que dei um pulo na cadeira, e meu copo d’água virou em cima do jornal e do meu exemplar de assinante da Vogue Brasil.

-Amiga, onde você está? Já toquei sua campainha mil vezes!

Era minha outra amiga, a Poli. Ela era amiga da Kamila antes de me conhecer, mais desde que fomos apresentadas viramos amigas também. Ela é uma das cadeiras permanentes do nosso círculo de amigos, o S.M.A.I. (Super Melhores Amigos de Infância). Muitos de nós não se conhecem exatamente “desde” a infância, mas virou uma piada nossa a alguns anos, e é basicamente um jeito das meninas de dizer que amou tanto a sua bolsa ou o anúncio da sua festa na coluna social do Correio Brasiliense, que agora viramos super melhores amigas de infância, dando a elas intimidade instantânea para pegar a bolsa emprestada ou entrar na lista VIP da festa.

-Não estou em casa. Tive que trabalhar durante a manhã.

-Credo, é a treva! Mais, já passa do meio-dia. Hellooo! A manhã acabou querida, vamos almoçar.

-Claro, eu estava mesmo pensando em ir comer alguma coisa. Aonde vamos?

-A galera pegou a mesa do Ricardo no Dom. Te vejo lá em quinze minutos. Bye!

O Dom, ou Dom Francisco na verdade, é um restaurante muito tradicional, e apesar de haverem várias unidades na cidade, só existe um de verdade para se ser visto, o da Academia de Tênis. As mesas são muito disputadas, e só gente com muita influência ou reservas de meses consegue um espaço. Isso se você não for amiga do Ricardo. O pai dele é do ramo de vinhos, e vem de uma família italiana muito tradicional com vinhedos na toscana e tudo mais. São inclusive super melhores amigos de infância do senhor Francisco, o dono da rede de restaurantes. A mesa deles está sempre reservada, e quando acontece um almoço assim em cima da hora só para a nossa galera, é por que tem alguma fofoca quente para ser compartilhada, esclarecida ou ridicularizada em grande estilo.

Já no táxi a caminho da Academia de Tênis, peguei o celular para ligar para Kamila, para perguntar se ela estava por dentro da reuniãozinha de última hora, mais eu já sabia a resposta antes mesmo dela atender ao telefone.

-Ana, onde você está? Já estamos na segunda garrafa de Chardonnay aqui! Chega logo ou os meninos não vão ter condições de te contar a novidade!

Oh Deus, o que será dessa vez. Da última vez que me avisaram sobre um almoço no Dom para me contar uma novidade, o avião particular já estava alugado e em duas horas e meia estávamos a caminho do show do David Guetta em Miami.

Entrei no restaurante, e antes mesmo de eu dizer o meu nome para a recepcionista, ouvi gritos entusiasmados vindo da mesa dos Renault (o sobrenome do Ricardo é Renault, aliás). A pobre moça olhou para o fundo do salão onde o Ricardo fazia um gesto com a mão no ar, indicando que eu deveria ser convidada a me juntar a eles, enquanto Kamila, Poli e os outros levantavam as taças, assobiavam e sorriam alto.

Dei um sorrisinho sem graça à ela e me dirigi à mesa, enquanto uns casais e famílias que almoçavam nas mesas a nossa volta olhavam para mim irritados como se a comoção que atrapalhava sua tranqüila refeição fosse culpa minha. Me sentei na única cadeira livre de costas para a entrada onde uma taça de vinho tinto já me esperava.

-Vocês me matam de vergonha.

-Vergonha é só outro nome para sóbria. Começa logo, você já está bem atrasada no consumo de hoje.

O Ricardo é o verdadeiro culpado pelo nosso hábito de encher a cara pelo menos duas vezes por semana juntos.

Além dele, o Gustavo e o Juninho também estavam á mesa, junto com a Kamila, a Poli e a Dani. Essa é a nossa galera regular, sabe, aqueles com passe livre para as festas uns dos outros e detentores do poder de veto nos programas chatos ou perigosos demais propostos para o grupo.

Não sei exatamente porque mais, de alguma forma, nos últimos anos depois de cada farra, bebedeira ou bagunça, quando a maioria das pessoas dispersava e o dia ia amanhecendo, no final das contas eram sempre os mesmos rostos conhecidos que ficavam para trás para se ajudar a chegar em casa, ou encontrar um comprimido para dor de cabeça ou a chave do carro perdida. E isso meio que criou um laço entre nós, e agora ninguém programa nada, nem um cinema (não que a gente vá ao cinema, mais, você entendeu) sem ao menos mandar uma mensagem de texto para o celular de cada um com o horário, lugar e grau de importância do seu comparecimento. Cada novo amigo, amiga, namorada ou namorado em potencial passa por uma série de debates até ser aprovado. E nada dessa coisa de vontade da maioria não. Ou é consenso ou é nada. E acredite se quiser, o sistema tem lá as suas falhas, mas funciona.

-E aí, qual é a novis?

Gosto de ir logo direto ao assunto, porque não confio nem em mim e nem neles depois da primeira garrafa de vinho para falar de coisas importantes, e considerando o cansaço físico e mental acometido a mim pelo trabalho, posso garantir que estávamos a poucos minutos de transformar minha predição em verdade.

-Vira essa taça e se segura bem à cadeira guria, porque essa é das boas.

Momentos de tensão são a especialidade da Dani.

Capítulo 2

Não que eu não aprecie uma boa festa mas, comemorar o seu aniversário duas vezes na mesma cidade com um espaço de uma semana entre elas e com os mesmos convidados… É super mega narcisista! E fazer vinte e cinco anos nem é um aniversário para se ficar tão feliz assim por completar. Quero dizer, o que mudou na minha vida efetivamente? Um ano mais perto da menopausa? Ou um ano mais longe da primeira menstruação? Simplesmente não posso.

-Gente, simplesmente não posso! Dar outra festa? Semana que vem? Não dá.

-Do que você está falando garota? Fui eu quem deu a festa para você! Além do mais, isso não tem nada a ver com os seus vinte e cinco anos Ana. É praticamente uma dívida com a sociedade de Brasília já que a festa original foi tipo, mega deprê. _Kamila afirmou com cara de quem fala muito sério.

-Exato. As pessoas ainda estão comentando o desastre de ontem. A situação tem que ser remediada. Pelo nosso bem, é sério.

Eu sei que a Dani parece não ligar a mínima para mim tanto quanto para o seu status social quando diz coisas desse tipo, mais no fundo ela é bem legal.

-Nosso bem? O que você tem a ver com tudo isso? Ontem você mal chegou à festa e já foi embora. _É verdade, ela deu meia volta no meio do abraço de feliz aniversário que me deu.

-Querida, quando você me explicou a situação, não quis arriscar que as pessoas me vissem tempo o suficiente para memorizarem meu vestido e sapatos novos, assim pude salvar o meu look para uma próxima ocasião que o merecesse. Regra básica fashion: nunca desperdice um look fantástico numa ocasião mais ou menos.

-Minha festa não foi mais ou menos!

-Não, mais o pré funeral do cachorro foi.

A Dani tomou um gole do seu vinho com as sobrancelhas levantadas como quem encerra uma discussão com um argumento irrefutável.

Pensei por um momento. Talvez não fosse tão má ideia afinal de contas. Meu aniversário não teve uma comemoração, não de verdade. Que mal poderia fazer? Apesar de que… Mesmo me apoiando ao máximo na minha escalada rumo ao topo da classe trabalhadora, a Kamila ainda tinha que fazer muito esforço para entender porque eu não podia simplesmente fazer como todos os outros herdeiros da cidade, e viver tirando vantagem das facilidades automáticas dadas a nós. Eu a expliquei uma ou duas vezes sobre o valor do trabalho duro, a satisfação de ganhar o próprio dinheiro, a experiência de vida vinda das relações com os colegas de trabalho e tal, mas além do olhar parado e vazio que ela esboçou, nada mais se mostrou fruto dessa conversa.

Mas ninguém pode dizer que ela não me apóia porque, entre os convidados à festa/ fiasco de ontem estavam alguns dos meus colegas de trabalho que ela fez questão de convidar e confirmar a presença.

O problema é que, se eles não me enxergavam antes como uma patricinha mimada, rica e sem limites por eu aparecer sempre bem penteada e maquiada todas as manhãs, vestida nos terninhos da última temporada da Chanel e contando histórias sobre as minhas viagens inusitadas pelo mundo, e festas e baladas mais exclusivas da cidade, então agora, depois da minha festa de aniversário ter sido transformada em pré funeral do cachorro da minha melhor amiga, e o pior, todo mundo parecer realmente comovido e pesaroso como se a mãe dela tivesse morrido na verdade, agora com certeza eles me enxergariam assim. Que dirá se fossem convidados para uma segunda festa, uma semana depois, provavelmente mais cara e glamorosa do que a anterior? A minha fama preconceituosa de diva seria mais do que confirmada.

-Ana, você nem vai ter que fazer nada, só aparecer! _Gustavo já estava na quarta taça de vinho. Que eu pude contar é claro, desde que me sentei à mesa.

-Ah, vocês só querem uma desculpa para encher a cara.

Todos olharam para mim com cara de despreocupados.

-Lógico! _O que eu gosto no Ricardo é que ele fala sempre a verdade, doa quem doer, embriague quem embriagar.

-Você achou que era por quê? Porque amamos você e queremos comemorar o seu aniversário como achamos que você merece? Fala sério gata. _O Juninho é bom de sarcasmo, mais é péssimo em apelidos carinhosos.

-Vai, vai, por favor!

-Vai Aninha! Please!

-OK.

Me venceram pelo cansaço mais uma vez.

-Mas tenho duas condições. Primeiro, que ninguém do meu trabalho seja convidado. Já sou xingada pelas costas o suficiente. E segundo, nada de sábado à noite, é muito óbvio. Na sexta-feira é melhor.

-Valeu gata!

-Já é!

-Tá, tá, seus amigos da onça. _Eu disse e o Juninho levantou a mão para eu bater com a minha no ar, o Ricardo ergueu sua taça, o Gustavo me deu um apertão no ombro e as meninas bateram palminhas e deram risadinhas descontroladas de animação.

Depois de terminarmos a garrafa de vinho e comermos uns aperitivos mandados como presentes pelo Chef (a vida é assim no círculo de amigos dos Renault), andamos todos juntos até o estacionamento do Dom para esperar os táxis, exceto o Ricardo e os meninos, que iam de carona com ele na sua Mercedes com motorista (mais uma vez, vida de amigo do Ricardo não é fácil).

Kamila falava ao celular.

-Então está tudo acertado Paulinha? _Paulinha é a organizadora de festas da Kamila. Parece meio desnecessário, mas, com a quantidade de festas que a família da Kamila oferece todos os anos e a quantidade de compromissos diários que ela tem, ficaria mesmo muito cansativo organizar tudo sozinha.

Mais um lado bom de ter a Ka como minha melhor amiga é que ela toma as rédeas dessas coisas, o que torna a experiência muito mais divertida, porque de verdade, organizar eventos para gente importante é estafante. É claro, se você não tiver a super Paulinha ao resgate jogando no seu time._ OK então querida, te ligo se tiver qualquer dúvida. Certo. Bye!

-Ah! Vai ser tão legal! _Dani também mexia no celular, mas ela estava escrevendo uma mensagem de texto. A Poli também começou.

-Certeza!

O meu táxi chegou junto com o das meninas. Mandei beijos no ar para todos ao me despedir. As meninas saíram na frente em seu táxi, e ao entrar na Mercedes o Ricardo gritou para mim:

-Sexta à noite vai bombar! Coloque o seu melhor PJ!

-PJ?

-É! Não te contamos? A festa vai ser temática. Festa do pijama! Tchau!

Ele entrou no carro e foi embora, me deixando com cara de boba no meio do estacionamento com um pé dentro do carro e o outro no asfalto.

Como assim? Eu sabia que tinha algum detalhe faltando nessa emboscada que me aprontaram. Festa do pijama? Todo mundo sabe que isso é só uma desculpa para as meninas colocarem lingerie sexy e desfilarem a noite toda pela festa mostrando os contornos de tudo aquilo que Deus e a medicina estética lhe deram. É meninas, façam fila, porque a corrida contra o tempo para se bronzear, se depilar e se tonificar até sexta-feira já começou.

Capítulo 3

Assim que entrei em casa meu celular tocou. Demorei alguns segundos para vasculhar o fundo da bolsa, acender a luz e trancar a porta ao mesmo tempo, considerando o meu reflexo diminuído pela metade por causa da quantidade de vinho que havia bebido essa tarde.

Era a Juliana, minha colega de trabalho. Nós duas ocupamos o mesmo cargo, por isso todas as decisões quanto às nossas obrigações têm que ser tomadas em dupla. Eu me considero aberta a opiniões, portanto boa em trabalho em grupo. O único probleminha é que lógico, graças à lei de Murphy, a Juliana é incrivelmente mandona e sem espírito de equipe, o que faz o nosso trabalho juntas ser um verdadeiro desafio. Ela vive me tratando como sua secretária, e quase sempre leva crédito pelas minhas boas ideias.

-Ana, só queria te lembrar que o projeto de cooperação número 209 tem que ser concluído o mais rápido possível. O Dr. Denis foi muito claro quando disse que queria assistir à apresentação antes de nós apresentarmos formalmente o projeto ao dono da multinacional na semana que vêm.

A Juliana me dá nos nervos às vezes. Mesmo moderadamente bêbada eu ainda consegui reunir forças para me chatear com o tom mandão na voz dela. Quero dizer, a responsabilidade de redigir e apresentar o projeto 209 foi dada a nós duas igualmente, e ela me liga num sábado a noite para me cobrar como se ela fosse minha chefe. Que cara de pau! Realmente me dá nos nervos.

O projeto de cooperação 209 (caso você esteja imaginando) se trata de um projeto muito ambicioso que, diga-se de passagem, foi ideia minha desde o começo.

Um país africano, devastado por conflitos internos que duraram longos anos a cessaram a pouco menos de alguns meses, não possui um governo muito organizado, mas possui um elemento extra que não acontece na grande maioria dos casos como esse, aliás, muito comuns no mundo (sério gente, é só ler o jornal de vez em quando).

O governo, apesar de mal conduzido, é extremamente estável e seguro. A única coisa que restou do antigo regime foi a seriedade das forças armadas e a garantia do poder governamental nas mãos da nossa amada e idolatrada democracia. Resultado: muito espaço para gente estrangeira interessada dar um pulinho por lá e ajudar na reconstrução dos serviços básicos que o povo precisa.

A minha ideia, depois de assistir um documentário sobre o país, foi de nos associar com empresas nacionais para criar ONGs por lá, e gerar meios para as pessoas se sentirem convidadas a ajudar, sabe, financeiramente e com trabalho voluntário.

Alguns países já começaram a criar postos médicos e reavivar antigas fazendas e plantações devastadas pela guerra, o que parece estar ajudando muito. E a minha ideia inicial era basicamente a mesma. Só que depois de começar a fazer contato com representantes de várias empresas para procurar parceiros em potencial, recebi uma proposta super incrível de uma multinacional.

O dono da marca Cugar, uma mega distribuidora de artigos esportivos com anos de tradição no Brasil e em vários outros países do mundo, nos mandou um comunicado através de um dos diretores da marca aqui em Brasília. Dizia basicamente que estavam muito interessados em participar do nosso projeto, e que queriam marcar uma reunião para discutir os detalhes, mais que de antemão queriam que criássemos uma ONG com finalidade de recreação para crianças, com várias atividades esportivas, totalmente financiadas pela Cugar, desde que fossem o nosso único parceiro no projeto, recebendo assim, junto com a Secretaria de Resolução de Conflitos da ONU, todos os créditos pela iniciativa e o que mais viesse dela.

O meu chefe ficou tão satisfeito com os resultados das minhas horas e horas de negociação com milhares de marcas no país todo, que imediatamente me colocou à frente da criação e administração do projeto. Bom, eu e a Juliana é claro, já que ela fez umas duas ou três ligações e redigiu umas quinze linhas no relatório da proposta inicial.

Acontece que o projeto virou motivo de fofoca de um dia para o outro. Tinha gente ligando de tudo quanto é escritório da ONU para saber informações sobre o assunto. E quando meu chefe percebeu que o projeto tinha potencial para ser o maior já organizado pelo escritório brasileiro da Secretaria, ordenou completa descrição por parte de todos os envolvidos. Nem uma palavra foi dita sobre o assunto, a não ser pelo meu chefe, o Dr. Denis, numa conferência para os jornais e revistas nacionais.

Ele explicou os por menores do projeto em um discurso de 10 minutos, e disse para toda a equipe do escritório que nada podia sair do nosso prédio, nem um detalhe, sem antes passar por ele, e que só haveria uma segunda conferência quando o projeto fosse concluído e garantido por um contrato, com aperto de mão entre ele e o figurão dono da multinacional e tudo mais.

-Juliana, oi. Olha, eu sei, eu estava sentada ao seu lado na reunião quando ele disse isso lembra? E não se preocupe, a apresentação já está praticamente pronta. _Não graças a você, pensei.

-Praticamente não é totalmente, não é? Precisamos estar preparadas. Você não quer que a apresentação seja um fiasco e o Dr. Denis passe o projeto para outra pessoa, quer?

-Claro que não. Relaxa, estaremos prontas. _Reafirmei.

-Nesse caso, na segunda bem cedo vou até a sala de reuniões marcar a nossa pré-apresentação para terça-feira, ok?

-Não! _Saiu mais alto de que eu pretendia. Droga de Chardonnay caro e gostoso._ Quero dizer… Qual é a pressa? Podemos marcar para sexta-feira, não é?

-E se o Dr. Denis quiser que a gente faça alguma alteração na apresentação? Não vou trabalhar no fim de semana para compensar a sua incompetência!

Se estivéssemos tendo essa conversa pessoalmente eu teria empurrado ela com toda minha força agora. Vaca!

-E se ele quiser que VOCÊ mude algo que VOCÊ fez? Daí EU vou trabalhar no final de semana para compensar a SUA incompetência! _Rebati.

-Ha ha! Nem em um milhão de anos querida. Eu sei que a apresentação vai estar perfeita. Só garanta que estará pronta até terça-feira, certo?

-Sexta!

-Quarta!

-Quinta! Estaremos prontas para apresentar na quinta-feira. _Nossa, essa vaca é teimosa!

-Está bem então. Vou marcar para quinta-feira bem cedo. E vê se não estraga tudo. Tchauzinho!

E ela desligou. Um dia desses, quando ela me pegar de mau humor, eu juro que… Ah! Enfim, deixa para lá. Não faz bem para a pele se indispor com gente como a Juliana. Além de todo mundo no escritório já ter sido passado para trás por ela de um jeito ou de outro, ela sempre posa de santa na frente do Dr. Denis.

Outro dia, em frente à máquina de café, eu derrubei uns papéis no chão, me abaixei para apanhar, e ela se aproximou. Encheu sua caneca de café descafeinado e deixou o bule vazio. Me ignorou totalmente, e ao passar por mim ainda pisou com o salto da sandália de couro falso dela num dos meus papéis.

Minutos mais tarde, quando o Dr. Denis apareceu no corredor perguntando quem tinha acabado com o descafeinado e não fez outro bule, ela ergueu o dedo e apontou para mim com cara de decepção. Claro, dada a minha sorte, naquele segundo eu ia levantando a minha caneca de chá gelado até minha boca, e o Dr. Denis me deu um olhar repreensivo e disse:

-Não deixe isso acontecer novamente Ana. É falta de respeito sabe?

Não tive nem coragem de responder, e só dei uma olhada gelada para Juliana, que sorria maliciosamente para mim. Eu até que podia ter gritado para o meu chefe que a Juliana tinha esvaziado o bule de descafeinado, e que eu nem bebo café, mais ele deu as costas para mim quando a Juliana se levantou, e caminhando até a máquina de café ela disse:

-Pode deixar chefe, eu faço um bule quentinho e já levo para o senhor.

Quando comecei a trabalhar com ela, o pessoal me disse que algo do tipo poderia acontecer, e que eu deveria ficar de olhos abertos para o bote da cobra na primeira oportunidade que ela tivesse. Só que não imaginei que seria tão venenosa ao ponto de deliberadamente me sabotar para ficar bem na foto.

Mais, depois de alguns meses, aprendi a lidar com ela. Agora faço questão de estar presente em todas as reuniões e apresentações, assinar meu nome em tudo que escrevo e pessoalmente receber e entregar tudo relacionado ao meu trabalho. Não deixo mais nenhuma brecha para ela se esgueirar e roubar meus créditos ou falar mal de mim para ninguém.

No domingo acordei com aquela dor de cabeça básica de costume. Tinha uma mensagem no meu celular. Era da Kamila. Dizia: “Emergência! Me liga assim que acordar!”. Foi recebida as 8h40. Bom, se ela não me acordou é porque era uma emergência de importância mínima.

Não me abalei, e antes de ligar de volta tomei um banho, me vesti, tomei café-da-manhã com uma fruta e uma fatia de torta de frango da padaria, e liguei a TV.

-Oi amiga. Qual era a emergência?

-Temos uma crise nível dois aqui. Você devia ter me ligado mais cedo. Dormiu em casa?

-Claro que dormi em casa Kamila! Onde mais eu poderia dormir?

-Relaxa, só estou checando. _Ela se defendeu.

-É domingo, o que poderia ser tão grave para ser nível dois? Ainda nem passa das dez da manhã. _Perguntei.

-Acontece que tem um mundo inteiro funcionando lá fora querida, mesmo sem a sua gloriosa presença. Já pensou nisso?

-Gente que acorda antes das nove num domingo não pode ser normal. Não é possível.

De verdade, gente que acorda cedo por prazer me assusta. Eu poderia viver mil anos, e nunca entenderia a lógica da cabeça dessas pessoas.

-Não temos tempo para discutir a sua lógica do sono agora! Tenho que resolver um mega problema. _E a rainha do drama retoma seu trono.

-Manda! O que aflige seu coraçãozinho querida?

-Ana! Não é hora para piada! Estou numa situação difícil. Temos apenas uma semana até a festa e não sei o que servir! E quero que tudo saia perfeito!

-Hum, vejamos. _Comecei com ar de despreocupada._ O que combina mais com calcinhas e cuecas? Quem sabe mel, chantili e morangos! Pelo menos se algum casal quiser se divertir já vai estar no clima!

-Oops… Sabia que tinha esquecido alguma coisa.

-É! Esqueceu mesmo! A vergonha na cara Kamila! Como você pôde não me contar um detalhe tão crucial? Você sabe como o pessoal se empolga nessas festas! Daí você pede para todo mundo vir seminu e dá o empurrãozinho que faltava para a sua casa virar o samba da nega maluca!

A Kamila começou a rir apesar da minha total indignação ser completamente sincera. Já vi de tudo acontecer nessas festas e não me sinto confortável sabendo que o meu aniversário está servindo de desculpa para um desses “frevos do balacobaco” como os meninos dizem.

-Ana, vou repetir pela milionésima vez. _Ela ainda estava rindo._ Relaxa amiga! Vai ter muita segurança para garantir que nada saia do controle. Fica tranqüila.

Por algum motivo isso não foi o suficiente para me tranqüilizar.

-Tem certeza? Quero dizer, certeza mesmo? Olha, não queria ter que te lembrar disso mais… Não esqueça o que aconteceu na sua festa de 21 anos quando…

-Eu sei, eu sei! Combinamos de não falar mais disso! Nunca mais!

Ela parou de rir de repente, e disse num tom mais sério:

-Me escuta. Tenho tudo sob controle. Você não confia em mim?

Golpe baixo. Muito baixo mesmo. A tática de apelar para a confiança entre amigas quase nunca falha. E dessa vez, não falhou.

-Ok, ok. Se você tem TUDO sob controle, então…

-Tudo exceto a comida! _Ela adotou o tom choroso novamente._ Me ajudaaaaaaa!

Todo mundo sabe que durante essas festas ninguém realmente come alguma coisa. Muito raramente, na verdade. Mais acontece que mesmo assim, todo mundo repara o que está sendo oferecido aos convidados, de forma que se não houver um bufê digno da realeza á disposição, o comentário no outro dia será desumano, e o dono da festa sofrerá as conseqüências.

É público e notório: dar festas impecáveis é uma arte que poucos dominam. E a Kamila, claro, é uma dessas afortunadas pessoas. É uma das razões pela qual ela domina o cenário da alta sociedade da cidade. Ninguém doa tanto do seu tempo e dinheiro para garantir que uma festa será perfeita quanto a Kamila. E antes dela, o título pertenceu à sua mãe, e antes dela à sua avó. Enfim, você captou a mensagem. Ser a anfitriã perfeita está no sangue da Kamila e por mais que eu discuta e brigue, eu sei que nunca vou fazer ela desistir de organizar qualquer evento que seja, caso ela tenha decidido o fazer.

-Certo. De entrada, salgados recheados com pimenta, menta e banana com canela. Depois salada de frango acompanhada de arroz e postas de peixe frito no azeite, e de sobremesa morangos cobertos com chocolate e sorvete de creme com chantili. Copiou?

Eu sei. De onde saiu essa socialite bem entendida e desenvolta? Bom, apesar de eu não exercitar com freqüência o meu talento, eu tenho que dizer que fui muito bem treinada para exatamente esse tipo de situação a minha infância e adolescência inteiras. Minha família sempre foi muito ligada ao círculo social, assim como a família da Kamila, e tomar esse tipo de decisão foi uma das aulas que minha mãe mais insistiu em garantir que eu passasse.

O problema é que, assim que fiz 16 anos e percebi que havia muito mais coisas acontecendo no mundo além da vida social da elite de Brasília, tratei de me afastar das aulas de etiqueta e comecei a me apegar a livros, viagens e coisas do tipo. Minha família não ficou muito feliz na época, é claro, mais com o tempo acho que acabaram aceitando que eu tinha o direito de ter outros interesses, e que o nosso mundinho já não era o suficiente para mim, e que na verdade isso era uma coisa boa, apesar de no primeiro momento quase ter causado um infarto na minha mãe. Mais como era de se esperar, tais conhecimentos não simplesmente evaporam. Ao contrário, ficam guardados no fundo da memória, esperando o momento exato para dar um alô. E esse foi um desses momentos.

-Juro amiga, você é minha heroína! Já passei tudo para a Paulinha, ela está sentada bem à minha frente.

-Está?

-Passei no escritório dela agora cedo para resolver esse detalhe. Eu estava quase perdendo a cabeça! Se não resolvesse isso hoje…

-Mais, é domingo! Kamila, deixe a pobre moça descansar! Ela também trabalha muito sabia? _Lhe implorei.

-Ela ficou mais que feliz em me receber quando liguei ontem à noite e marquei o encontro. Está tudo bem. Viu, ela está sorrindo para mim agora mesmo.

Pobre Paulinha. É claro que ela está sorrindo, e é claro que disse ficar feliz em receber sua cliente número um em uma manhã de domingo no escritório. Ela tem um cérebro. E ela o usa.

Às vezes me assusta a inocência da Kamila quanto aos sacrifícios que as pessoas a sua volta fazem para suprir suas necessidades e vontades repentinas. Ela é tão esperta para algumas coisas, e para outras… Não.

-Certo. _Ainda tinha pena da Paulinha, mas não podia fazer nada pelo telefone._ Então, já está tudo resolvido. Acabou o drama.

-Ah, quem me dera… Então, almoço?

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